Opinião

Mais mulheres. E então?

Mais mulheres. E então?

Ana Catarina Mendes tornou-se ontem a primeira mulher presidente do grupo parlamentar do PS e logo se ouviram vozes da bancada a elogiar a indicação de mais cinco mulheres para as vice-presidências, totalizando uma percentagem de 46% na direção.

Como defensora da igualdade de género e da valorização do mérito, mas não propriamente simpatizante das quotas como método para medir a paridade, quis olhar atentamente para estes nomes. E alguns têm que se lhe diga.

Maria Begonha, eleita líder da Juventude Socialista em dezembro passado, causou polémica por ter no currículo falsas informações de um mestrado em Ciência Política nunca concluído. Ou por ter recebido, em quatro anos, 140 mil euros em ajustes diretos da Câmara de Lisboa e da Junta de Freguesia de Benfica (ambas socialistas), incluindo para prestar "serviços de apoio ao secretariado". Lara Martinho, que já era vice de Carlos César na anterior legislatura, está entre os deputados das ilhas que acumularam duplos apoios estatais para as viagens.

Finalmente, Hortense Martins foi várias vezes notícia este ano. Em abril, dando conta que o Parlamento adjudicou a um hotel de que é proprietária a dormida de deputados da Comissão de Ambiente em trabalho em Castelo Branco. Em maio, por ter conseguido, enquanto gerente da empresa do pai, fundos europeus indevidos para projetos turísticos já concluídos à data da candidatura. Ainda em maio, por incoerências entre o registo de interesses no Parlamento e dados constantes no Registo Comercial.

Este é um exemplo evidente de como a presença quantitativa de mulheres em listas não é, por si só, sinónimo de coisa nenhuma. E de como os partidos conseguem fingir estar a fazer tudo bem, mascarando questões de fundo da máxima importância. Na escolha para cargos de responsabilidade, fica à vista a falta de preocupação com o perfil ético e o rigor demonstrado no percurso político. Ou para isso também é preciso criar quotas?

*Diretora-adjunta

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