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Menos sutiãs queimados

Menos sutiãs queimados

Amanhã, o Benfica entra em campo com o Dortmund e a RTP fez um spot a pedir desculpa à Vanessa, à Rita, à Maria e a mais meia dúzia de mulheres. "A RTP pede desculpa porque no dia dos namorados vamos dar o Benfica. Amores mais altos se levantam". De imediato, houve reações indignadas nas redes sociais, criticando o sexismo do anúncio, assente no preconceito de que só os homens gostam de bola.

Tão depressa como ouvi mulheres que se sentiram ofendidas, vi outras frequentadoras de estádios relativizar e achar graça. O anúncio tem na base um evidente estereótipo. Como tanta publicidade a carros, cremes, malas, perfumes ou roupa. Como mulher, não me ofende minimamente um anúncio que parte do princípio de que são maioritariamente os homens que vão à bola. Porque essa é uma evidência factual e a publicidade recorre ao senso comum para fazer passar a sua mensagem. Já me ofende, como vi no período de Natal, o cartaz de um robô de cozinha dizendo que a sua compra permitiria "à mãe" passar menos tempo na cozinha. Isso, sim, é confinar a mulher a um papel e perpetuar uma desigualdade na partilha de tarefas domésticas.

A dificuldade é que existem as mais diferentes visões quanto às melhores estratégias para proteger os direitos da mulher. Quinta-feira, o Parlamento debate a consagração de quotas nas empresas cotadas em bolsa, e eu sou contra. Considero que as quotas menorizam e que chegamos lá sem necessidade de imposições matemáticas. Como há mulheres que defendem com unhas e dentes a criminalização do piropo e eu entendo que ele já poderia ser punido ao abrigo de artigos existentes antes da recente alteração ao Código Penal.

Ao partirem de uma base desequilibrada no que diz respeito a direitos e oportunidades, as mulheres trilham um caminho tão árduo que por vezes tendem a disparar em todas as direções. E o risco é misturar reivindicações justas com indignações exageradas por pormenores que não valem o esforço.

Homens e mulheres não são iguais e as diferenças não são simplesmente físicas. E mesmo que se diga que a diferença apenas resulta de uma construção cultural, valorizo um mundo feito de diversidade. O feminismo em que acredito não é o que quer nivelar e tornar-nos iguais. É o que aceita as diferenças. A sua luta é a da não discriminação e da igualdade de oportunidades. Não é coisa pouca. Por isso, mais vale pouparmo-nos a pormenores sem substância.

* SUBDIRETORA