Opinião

Motivos para a esperança

Motivos para a esperança

Não sendo uma categoria fundamental da filosofia, a esperança tem sido abordada por diversos filósofos, nomeadamente quando centrados no existencialismo cristão, como Paul Ricoeur, ou numa perspetiva social do pensamento.

A esperança é simultaneamente racional e irracional. Movimenta-se no ambiente da promessa, na possibilidade de uma rutura que abra um espaço novo para o futuro.

A Páscoa tem, mesmo para os não crentes, esse significado de renovação que possibilita uma vida nova. E socialmente precisamos, como nunca, de acreditar que outro horizonte é possível. No plano sanitário, económico, até político. Estamos há mais de um ano mergulhados numa crise que nos asfixia emocional e relacionalmente. E, pior, que fragilizou tantos nas suas condições de vida. A espera tornou-se sinónimo de imobilidade e de paralisia. E nem sempre se perspetiva o "eu espero" no sentido reconstrutivo da esperança.

Politicamente, este é o tempo anunciado de recomeços. Amanhã, o país inicia uma importante etapa de desconfinamento. A vacinação acelera este mês. Da Europa esperam-se os milhões da "bazuca", vistos como remédio para todos os nossos males e desigualdades profundas. Mesmo que os fundos do quadro comunitário em vigor, com níveis de execução demasiado baixos, nos deem poucos motivos de confiança.

Na noite em que foi reeleito, o presidente da República lançou como grande desafio a recriação do país. Uma renovação social que vai muito além do retomar da vida pré-crise e pressupõe a capacidade de nos reinventarmos, mais coesos a todos os níveis. Nos últimos meses, as querelas políticas crescentes e polémicas como a venda das barragens da EDP e a recapitalização do Novo Banco, que minam a confiança dos portugueses, têm mostrado pouca capacidade mobilizadora dos nossos dirigentes políticos.

É possível, individualmente, cada um de nós escolher a esperança e fazer a sua parte para uma vida renovada. Socialmente, essa meta nunca será atingida sem projetos verdadeiramente inovadores e lideranças fortes. Não basta esperar. É preciso haver motivos para a esperança.

*Diretora

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