Opinião

Notas inflacionadas: o crime compensa?

Notas inflacionadas: o crime compensa?

Fica sempre bem dizer que nenhuma escola deve estar orientada para médias e rankings e que a aprendizagem é muito mais do que uma pauta de classificações. Na hora da verdade, fruto do modelo de acesso ao Ensino Superior em vigor, para quem ambiciona cursos com vagas restritas o Secundário é um tempo de ansiedade e de muitas contas, em que um deslize ou um valor a menos podem fazer toda a diferença.

Essa pressão contribui para práticas reiteradas de inflação de notas, mais comuns entre colégios do que em escolas públicas. De acordo com os investigadores Gil Nata e Tiago Neves, que estudaram em profundidade as consequências deste fenómeno, uma média inflacionada em um valor percentual permite ao aluno, num curso de topo como Medicina, saltar 90% dos lugares na lista de ingresso. Nos cursos menos competitivos, o impacto ronda os 30%.

Depois de anos de notícias sobre fiscalização de colégios, foi conhecida a suspensão, por um ano, da diretora pedagógica do externato Ribadouro, um dos mais procurados no Porto. E é essencial que sejam conhecidos mais resultados e conclusões detalhadas das investigações, porque a inflação das notas internas põe em risco a justiça social e distorce o trabalho efetivo de milhares de jovens.

Curioso é perceber que o que começa por parecer uma vantagem para os alunos injustamente beneficiados esconde, a médio e longo prazo, problemas e consequências perversas dessa distorção. Uma investigação do CINTESIS - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde concluiu que alunos provenientes de escolas que inflacionavam muito as notas tinham pior desempenho no Ensino Superior do que os de escolas secundárias que não inflacionavam.

Se pensarmos mais longe, existirão ainda mais danos colaterais de uma cultura obcecada pela média. Porque a obsessão esconde o que deveria ser evidente, mas não é realmente interiorizado por pais, alunos e docentes que se sentem permanentemente avaliados por resultados. Um aluno com boas notas não é, só por isso, mais capaz de pensar, criar e decidir. E muito menos, só por isso, um profissional competente e realizado naquilo que vier a fazer. Uma escola que veja mais longe chegará mais perto das potencialidades de cada um.

Diretora

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG