Opinião

O dote da noiva

As conturbadas relações à esquerda têm suscitado as mais criativas metáforas e no arranque de uma nova legislatura Rui Rio escolheu a rábula do enxoval da noiva. Talvez a imagem mais adequada seja a do dote, o preço que o noivo tem de pagar para satisfazer as exigências da noiva. Na tentativa de conter reivindicações, António Costa e Augusto Santos Silva argumentam que a Esquerda está comprometida e que falhar seria uma "traição" ao eleitorado. O PS é uma espécie de defensor do poliamor que exige fidelidade a cada uma das parceiras.

Se do lado do PCP o primeiro-ministro sabe desde o início que não há interesse em casar, o Bloco de Esquerda fez questão de deixar claro que um namoro sem estabilidade pode sair caro aos socialistas. Da habitação aos salários, passando pelo desafio de começar a introduzir a exclusividade dos médicos no SNS, o BE insistiu na mensagem de que só poderá aceitar a união com o dote claramente inscrito no Orçamento do Estado.

A estabilidade é um conceito complexo, em política como na vida. Um casamento pode ruir em pouco tempo e não há papéis que o segurem. E uma relação aberta sem aparente compromisso resulta, não raras vezes, em entendimento com futuro. Seja como for, à esquerda os avisos são claros: não se pode exigir apoio sem termos que agradem a ambos os parceiros. Um consenso que se tornará mais difícil de encontrar se o crescimento económico der lugar a um ritmo bem mais modesto que exija (ainda mais) contenção.

O problema, nos preparativos para este casamento, é que o dote não é uma questão que diz respeito apenas aos noivos. Depois de quatro anos de reposição salarial e normalização da economia, neste ciclo exigem-se novidades e capacidade de fazer reformas. As negociações e opções que venham a ser tomadas fazem toda a diferença na vida dos portugueses. Nas urnas, ao fortalecerem a Esquerda sem darem a maioria absoluta ao PS, os eleitores disseram que querem manter o casamento. Ao Governo não basta exigir fidelidade, é preciso mostrar respeito pelos convidados da boda. Ou será o primeiro a trair o voto de confiança que lhe deram.

*Diretor-adjunta

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG