Opinião

O jornalismo e as pessoas

O jornalismo e as pessoas

Cada linha de jornal é um espaço limitado, caro e que responsabiliza enormemente quem o utiliza. Por maioria de razão, escrever opinião chega a ser um exercício doloroso.

Nem todas as pessoas têm voz e poder usá-la é um privilégio. Nem sempre o que temos a dizer tem relevância. Nem sempre temos certezas categóricas ou posições assertivas, como se exige na era dos comentários e sentenças por tudo e coisa nenhuma.

É, por isso, um risco usar uma coluna para falar de uma jovem de 17 anos, na semana em que os direitos da mulher incendeiam o Irão, Putin reafirmou ao Mundo que o cenário de uso de armas nucleares não é bluff, foi nomeado o primeiro diretor-executivo com a missão de colocar o Serviço Nacional de Saúde num novo patamar, chefe do Governo e líder da Oposição acordaram a metodologia para se chegar (finalmente, e só lá para final de 2023) à decisão sobre o futuro aeroporto. E, ainda assim, a história de Nini que hoje se conta nas páginas da "Notícias Magazine" é tão invulgar e inspiradora que merece levar-nos além dos temas das manchetes, da grande política, da inflação ou da guerra.

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Com uma alegria infinita de viver, Nini percebeu que amar a vida é também aceitar quando é preciso deixá-la ir. Um percurso cheio de angústias, para ela e a família, que poderia levar-nos ao fundo de um poço, mas pelo contrário consegue mostrar-nos uma estranha luminosidade. Como explica a mãe de Nini, os milagres não estão sempre do lado da salvação. Estão nas escolhas que fazemos com aquilo que nos vai sendo colocado entre as mãos. Não é filosofia de cordel, é nua e crua realidade: pode haver mais intensidade e pegada em vidas aparentemente curtas do que em quem vive um século a correr para lado nenhum.

Num tempo em que as redações correm cada vez mais, em que os títulos e os temas que perseguimos são demasiado parecidos, em que estamos muito sentados na cadeira, em que é difícil parar e ter tempo para deixar a vida fluir no espaço raro e caro de um jornal ou de uma revista, vale a pena ler os dias de Nini através da sua própria lente. O jornalismo terá sempre razão de ser enquanto conseguir encher-se de gente que merece ser contada.

*Diretora

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