Opinião

O Mundo é dos homens

Sou, por princípio, contra as quotas como instrumento de promoção da igualdade do género. Percebo que a imposição ainda seja um caminho necessário para recuperar desequilíbrios demasiado acentuados, mas acredito que o mérito e a real alteração de mentalidades são o verdadeiro motor de mudança.

A prática e os indicadores do quotidiano, contudo, mostram poucos sinais para otimismo, por mais que se lancem relatórios, alertas e debates sobre o tema. Olhar para as listas de candidatos autárquicos volta a confirmar que a política ainda é uma coutada de machos. A lei da paridade é cumprida por obrigação: as posições mais frequentes das mulheres são as 3.ª, 6.ª e 9.ª das listas, ou seja, as últimas obrigatórias para cumprirem a lei.

Em 2017, foram eleitas apenas 32 presidentes de câmara (pouco mais de 10% do total) e apenas 370 das mais de 3 mil freguesias são lideradas por mulheres. De um modo geral, este ano todos os partidos se vangloriam com o crescimento de candidatas, mas poucas no topo das listas. Veja-se o exemplo do PS, que destacou o "crescimento", mas não consegue mais do que 44 mulheres a encabeçar listas. O PSD congratula-se com a quase paridade (44,56% de mulheres), mas o caso muda de figura quanto a posições de destaque. E o BE é um caso raro, conseguindo a maioria no feminino (50,1%), mas longe da implantação territorial que lhes consiga um poder efetivo.

O Mundo é dos homens, dizia-me há poucos dias uma amiga, a meio de uma conversa sobre violação e as ambiguidades que ainda se alimentam em torno de um direito tão básico como é o de dizer "não". Por momentos, achei o desânimo excessivo, mas provavelmente precisaremos de décadas para mudar esta evidência que marca a vida profissional e as relações sociais e familiares da mulher.

Chegará o dia em que já não é notícia a primeira mulher a ocupar cargos vistos como "masculinos", seja na política ou nas Forças Armadas, na economia ou em desportos que exigem particular força ou destreza física. Chegará o dia em que dispensaremos a lei da paridade. Ainda não é o dia.

*Diretora

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