Opinião

Participar e exigir

Do buraco na rua à percentagem que nos é cobrada no IRS, as autarquias locais têm o poder de decidir muito do que de mais perto toca a nossa vida e a qualidade do território em que vivemos. Essa noção de proximidade não tem, ainda assim, evitado a tendência crescente na curva da abstenção eleitoral, que traduz tanto de desvalorização do direito e dever de votar como de desencanto com a imagem atualmente tão desgastada dos políticos.

Numa altura em que se agravam as assimetrias regionais, em que o país vive um problema sério de baixa natalidade, em que se abrem à nossa frente as tão badaladas oportunidades do Plano de Recuperação e Resiliência, seria bom que tivéssemos em todos os níveis de decisão e cargos públicos pessoas com rigor, criatividade e vontade de repensar o país. Por muito que as sucessivas campanhas nos pareçam cada vez mais estridentes e menos reflexivas, é papel dos eleitores continuar a exigir mais de quem se senta na cadeira do poder.

Os direitos dos eleitores não se esgotam nas urnas, mas começam nelas. Participar, escolher, fazer ouvir uma voz. E continuar, sempre, a interpretar o mais possível o papel que a lei reserva aos cidadãos. Como a possibilidade de participar em reuniões públicas e assembleias municipais, a apresentação de reclamações e propostas às autarquias, a exigência de acesso transparente e rigoroso à informação obrigatória, a consciência da relevância de consultas públicas, orçamentos participativos e outros instrumentos ao alcance de todos.

Podemos criticar as opções, os erros cometidos por quem serve a causa pública, a falta de projetos e de programas consistentes. Mas só cidadãos mais participativos e informados conseguem ter capacidade de intervenção e fiscalização e fazer aumentar o nível de exigência em relação aos seus eleitos.

O gesto dos candidatos à Câmara de Braga, que se uniram num momento raro de apelo ao voto contra a abstenção, representa a visão essencial de que a participação deve estar acima dos interesses e guerrilhas partidárias. Se conseguirmos que os nossos representantes assim o entendam, exigindo mais ação centrada nos problemas das pessoas e menos visão partidária ou focada nos seus próprios interesses, estaremos a dar vitalidade à nossa democracia e a melhorar a vida de todos nós. A política, no fundo, é simplesmente isso.

*Diretora

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