Opinião

Porrada na bola

Luís Figo era ainda um jovem cabeludo que começava a dar nas vistas, Balakov um número 10 em todos os sentidos que este número encerra dentro das quatro linhas, Cherbakov encantava com golos de fora da área, antes de pagar o preço dos excessos. O Sporting jogava que se fartava e nessa altura eu sofria com o futebol. Tanto que, nesse ano em que o clube quase ganhou tudo, mas acabou sem nada, aprendi a lição com que ainda hoje brinco sempre que há piadolas clubísticas: o Sporting prepara os adeptos para a vida, porque as derrotas fazem parte dela.

A partir desse ano, comecei a relativizar o que se passa dentro de campo por causa do que se vê fora dele. Não há época sem polémicas à volta da arbitragem, os clubes perdem-se em contratações milionárias mesmo que tenham as contas no vermelho e discutir um clássico pode originar verdadeiras batalhas campais. Não há como o futebol para ver pessoas tranquilas perderem toda a racionalidade.

Quem gosta de futebol não pode achar aceitável o comportamento agressivo de adeptos que vandalizam estádios, agridem rivais ou ferem espectadores com engenhos explosivos. Muito menos pode considerar admissível que o nome de um clube ou de uma claque seja associado a distúrbios como os que, ontem, obrigaram a desviar a rota de um avião e a fazer uma aterragem forçada para que os passageiros em causa fossem detidos.

Quem dirige um clube deve ter mão pesada para todos os adeptos que pisam o risco. Por todas as razões e mais alguma. Porque durante os jogos a indisciplina tem por vezes consequências financeiras e desportivas lesivas do interesse do próprio clube. Porque dentro e fora de campo o comportamento incivilizado mancha o nome das equipas que esses adeptos dizem defender. E porque valores como a segurança e o civismo nos devem mobilizar a todos, sem clubismos, em qualquer área ou setor de atividade.

O fenómeno está estudado, até do ponto de vista académico. Das ligações a extremismos nacionalistas ao consumo de álcool, passando por fatores como a própria estrutura dos estádios, os motivos da violência ultrapassam a esfera policial e envolvem questões sociais difíceis de controlar. Mas investir em códigos apertados de conduta e na regulação de comportamentos durante os jogos deve ser uma prioridade de todas as direções. Uma prioridade que deve partir de cima. No dia em que a linguagem dos próprios dirigentes for mais civilizada e limpa de provocações, estará dado o passo para que o futebol seja o que deveria: um desporto capaz de ser festa.

*SUBDIRETORA

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