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Portugal bipolar

Quem não se lembra da exaltação e do entusiasmo com que os portugueses viveram a Expo"98, dedicada aos oceanos? Ou do orgulho desmedido com que nos sentimos redimidos na luta pela independência de Timor- -Leste? Ou ainda da mobilização coletiva e da crença na vitória no Europeu de Futebol de 2004, do qual fomos anfitriões?

Não, o fervor com que tem sido celebrada a vitória na Eurovisão e a ainda recente conquista do Euro 2016 não é de agora. Nas redes sociais correm piadas sobre a distorção da nossa identidade: como é que, de repente, este país habituado a lugares pouco honrosos em rankings de educação, de produtividade, de tudo e mais alguma coisa, está na moda e atrai inclusivamente o olhar de artistas internacionais? O que nos fizeram para sermos capazes de vestir a pele de vencedores e para, de uma vez, expulsarmos o Diabo e pormos a economia a crescer 2,8%?

As piadas são, bem vistas as coisas, a continuação de uma visão emotiva e de extremos que faz parte da nossa identidade coletiva. Somos, em determinadas fases do nosso estado de espírito social, o povo conquistador, destemido, capaz de feitos heroicos, contra ventos e marés. Somos, noutras fases que entremeiam estas, os piores deste Mundo e do outro, fadados para a desgraça, incapazes de igualar o ritmo dos parceiros europeus.

Boaventura de Sousa Santos dedicou ao tema o "Ensaio contra a autoflagelação". Eduardo Lourenço refletiu detalhadamente sobre a tendência nacional para euforias irrealistas. Os dois estados de espírito são verdadeiros e alternam consoante sopram os ventos. Sintetizando a expressão do também filósofo Onésimo Teotónio de Almeida, padecemos de uma bipolaridade coletiva.

O problema dos extremos é que raramente se adequam à realidade tal como ela é. São interpretações e construções sociais que em qualquer dos casos nos fragilizam. Na fase depressiva, desmobilizam-nos e travam a ambição com que traçamos objetivos, porque duvidamos da capacidade de os conquistar. Na fase eufórica, levam-nos a hiperbolizar as vitórias, a agigantar expectativas e a retirar o foco do trabalho necessário para prosseguir o rumo.

As conquistas são positivas e mobilizadoras, sempre. Mas qualquer projeto de médio e longo prazo, como são os projetos de desenvolvimento de um país, precisa de consistência. Só a consistência poderá manter-nos seguros, quando a euforia começar a desvanecer-se.

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