Opinião

Que a pandemia não nos mude

Que a pandemia não nos mude

Desde o início da pandemia, quando as tentativas de romantizar o grande confinamento apontavam o minúsculo vírus como uma gigantesca oportunidade para a humanidade se repensar, duvidei que algo de realmente novo e disruptivo pudesse daí advir.

À medida que o tempo passa e ressurge algum discurso paranoico em torno do outono e do regresso às aulas, tenho cada vez mais convicção de que é preciso que a covid não nos mude para pior. Ou, pelo menos, a certeza daquilo que me recuso a mudar:

Acreditar na liberdade e na responsabilidade como valores a preservar, que devem ser defendidos ferozmente. Não aproveitar desculpas sanitárias para aumentar muros sociais, regionais, nacionalistas ou geracionais.

Não apontar o dedo aos outros, nem procurar culpados a todo o custo, porque muitas vezes eles não existem de facto. Não permitir que a arrogância moral se instale e motive juízos permanentes. Nem deixar que o azedume tome conta das relações no trabalho, na vizinhança, no café ou no supermercado.

Ter consciência social, empatia e capacidade de ponderar os efeitos que cada medida causa nos outros. Nas crianças em contextos de risco, nos desempregados, naqueles que se viram forçados a fechar negócios e empobreceram de repente, nos mais velhos abandonados à sua sorte e isolados, seja em lares ou em aldeias esvaziadas de gente.

Manter o toque e os afetos com quem importa. Sabendo que não há risco zero, mas que a privação da relação, a solidão e a distância podem ser mais prejudiciais para a saúde do que qualquer vírus.

Fazer planos, apesar da consciência de que a todo o minuto estes podem ser desarrumados. Porque mesmo sabendo que apenas o presente é seguro, e que a todo o momento podemos cair inesperadamente, o caminho só faz sentido olhando em frente. A noção da fragilidade não deve roubar a confiança no depois que nos move. Coletivamente.

*Diretora-adjunta

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