Opinião

Testar a nossa humanidade

Testar a nossa humanidade

Um teste à nossa contenção e resistência, mantendo o espírito de solidariedade. Em poucas palavras, foi nestes termos que Marcelo Rebelo de Sousa devolveu a todos os portugueses uma parte da responsabilidade em evitar que o estado de emergência se prolongue indefinidamente.

E que dezembro traga medidas ainda mais duras do que as já anunciadas ou em estudo no Conselho de Ministros de hoje.

Não há, nem dentro do Parlamento nem socialmente, o consenso em torno das medidas restritivas que uniu o país em março e abril. Não apenas devido ao desgaste que os oito meses de propagação da covid-19 vão causando, mas porque muitas das perspetivas variam consoante o lugar do qual se olha. Os efeitos devastadores na economia são inevitavelmente sentidos com maior violência por quem ficou sem emprego ou perdeu a sua empresa.

Por quem mergulhou na pobreza e percebe que não há dicotomia economia/saúde, mas uma dependência decisiva entre as duas. Tal como o contacto direto com a doença poderá facilitar a adesão a medidas mais restritivas, até porque o medo nos deixa menos vigilantes em relação ao risco de esvaziamento de direitos individuais.

É fácil criticar o Governo e as autoridades de saúde, porque os erros são evidentes e inevitáveis num quadro tão excecional. Mas não é por acaso que em toda a Europa se sente a mesma dificuldade em responder à intensidade desta segunda vaga e é cada vez mais arriscado apontar as melhores respostas para conter infeções, sem prejudicar os doentes não covid e sem cavar ainda mais o fosso profundo da desigualdade social.

É incerto o caminho pela frente e ficou claro, nas palavras do primeiro-ministro e do presidente da República, que poderemos viver em estado de emergência durante meses. Será difícil manter a coesão num dezembro sem balão de oxigénio para o comércio, com empresas a fechar portas, com milhões de pessoas numa solidão difícil de suavizar. Há que manter a lucidez, lutar contra teorias negacionistas ou conspiracionistas, aceitar que de facto uma parte da resposta depende de nós. Só salvaremos o Natal se, em cada escolha, colocarmos as pessoas no centro das nossas prioridades. Parece pouco, mas é de muita humanidade que precisamos.

*Diretora-adjunta

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