A ABRIR

Tudo menos cor-de-rosa

Tudo menos cor-de-rosa

Depois de séculos a interiorizar que "entre marido e mulher não se mete a colher", demoramos a olhar abertamente para os crimes de violência conjugal, tema ainda mais desconfortável quando envolve personalidades públicas. Acontece que a violência doméstica é um crime público. E casos como o de Manuel Maria Carrilho e Bárbara Guimarães mostram que, não sendo nada glamoroso, o problema não escolhe classes, idade ou habilitação académica e deve ser discutido com seriedade.

As imagens mais recentes da violência entre o casal são um murro no estômago. Porque revelam uma exposição impensável dos dois filhos. E nessa exposição vê-se um dos ângulos menos vezes falado nas estatísticas deste crime: a quantidade de crianças vítimas da irracionalidade dos pais. Para as quais a lei prevê regimes especiais de proteção, aparentemente poucas vezes acionados.

Já tantas páginas se escreveram sobre Bárbara e Carrilho que é difícil imaginar o que sentem as duas crianças apanhadas no meio de uma guerra descontrolada. O sofrimento é sempre irreparável, seja numa família desestruturada e em risco, seja num casal cuja vida nos habituámos a ver a cores e nas mais altas esferas de cargos públicos.

Quando pensamos na morosidade e no tempo da justiça, pensamos muito nos processos complexos e mediáticos. Mas há tanto de aparentemente mais simples que um sistema judicial eficaz e sensível poderia melhorar na vida das pessoas. Precisamos de investir em modernização, formação e fortalecimento da justiça por todas as razões e mais alguma. Para que os tribunais sejam expeditos e exemplares a lidar com casos de violência doméstica.

O tempo é relativo e um ano é sempre muito tempo, mas é ainda mais na vida de uma criança em crescimento. Nas marcas irreversíveis que cada minuto de violência causa. E que é obrigação do Estado impedir.

*Diretora-adjunta