Opinião

Um bonsai confinado

Um carvalho centenário, símbolo de perseverança e cuidado perene da floresta portuguesa. A oferta de António Costa a Marcelo Rebelo de Sousa, após um conselho de ministros extraordinário, serviu para os comentadores procurarem muitos sentidos nas entrelinhas.

O bonsai é uma árvore minúscula, que pode ser cuidada em confinamento. Uma oferta de paz e de procura da interioridade, na cultura budista. Ou, cozinhando a semiótica de um bonsai com a "solidariedade estratégica" pedida pelo presidente para a prevenção de incêndios, uma metáfora de tempos mais alinhados entre São Bento e Belém.

É conhecida a cooperação política entre o primeiro-ministro e o chefe de Estado. Mas as declarações públicas escondem muitas vezes recados e azedumes de parte a parte, que têm sido evidentes nas últimas semanas, quando se discute e exige um plano de desconfinamento. Marcelo deixou bem claro que quer o país - escolas incluídas - em casa até à Páscoa. Costa não se comprometeu com esse (nem nenhum outro) objetivo.

O presidente da República poderá, contudo, ter oferecido ao Governo todos os argumentos para aliviar já a partir de dia 15 as medidas. Ao ser tão preciso nos quatro indicadores que apontou, torna quase injustificável adiar por mais tempo um sinal de abertura. Com o Rt controlado, o número diário de casos abaixo de mil e uma taxa de incidência inferior aos níveis na Europa, falta apenas cumprir a meta nos internamentos. A manter-se a evolução dos últimos dias, também esta será entretanto superada.

Não basta desconfinar, claro. É preciso estratégia e planos de testagem em massa, rastreio eficaz de contactos, precisão matemática na vacinação. O Governo dá sinais de que poderá avançar com a inclusão de professores e auxiliares nas prioridades de vacinação, mas tem de mostrar mais trabalho de casa para assegurar tranquilidade na reabertura. A situação epidemiológica, ainda assim, não é um problema. Se forem assegurados todos os exigentes critérios definidos por Marcelo, que desculpa haverá para manter crianças em casa, com todos os impactos negativos que daí advêm? Só a total incapacidade de governar poderá justificar o eterno adiamento de decisões.

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