Opinião

Um crivo para mim, outro para ti

Um crivo para mim, outro para ti

Bater nos políticos, como se todos os que ocupam cargos públicos fossem uma massa indistinta e amaldiçoada pelos mesmos vícios, é um exercício fácil, mas demagógico e perigoso. O mais grave é quando a desvalorização dos titulares ou candidatos a esses cargos parte dos próprios políticos. Como aconteceu com o secretário-geral e coordenador autárquico do PSD, metendo os pés pelas mãos ao alegar que o crivo para escolher um autarca é mais largo do que para escolher um deputado.

É verdade que José Silvano se centrava em declarações específicas da candidata à câmara da Amadora, Suzana Garcia, sobre as terapias químicas para pedófilos reincidentes, sendo diferente a posição de um legislador relativamente à de um autarca. Mas a questão de fundo, que se prende com a coerência e perfil político exigido, não deveria alterar-se consoante as funções em causa.

Ao admitir que a candidata teria "outro crivo de análise" se estivesse em avaliação um lugar no Parlamento, José Silvano acaba por transmitir uma imagem de ligeireza quanto à importância de um autarca. Como se fosse possível estabelecer hierarquias e graus de exigência distintos. Como se não houvesse unidade nos princípios ideológicos, éticos e políticos de quem abraça a mesma equipa e projeto.

Um autarca, por mais pequena que seja a junta ou câmara que lidera, é quem mais próximo está das populações. Tem uma missão insubstituível de resposta social, de dinamização da economia local, de lançamento de projetos com visão e futuro para as populações. Cada titular de cargo público tem, à sua escala, a mesma responsabilidade e dignidade. Não há formas menores de serviço público. Nem lugares em que se possa ser mais condescendente na avaliação do perfil ou do desempenho da missão. E essa exigência deve estar tanto do lado de quem vota, como de quem se apresenta aos eleitores e pretende dignificar a política.

*Diretora

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG