Opinião

Um retrato do país real

Um retrato do país real

A 2 de junho, na conferência de aniversário do "Jornal de Notícias" que analisava a preparação do território para a transição digital, o presidente da Anacom prometeu fazer uma avaliação de desempenho de serviços móveis e de cobertura no concelho de Miranda do Douro, presente na sessão como exemplo dos desequilíbrios e desigualdades existentes no país. A promessa foi cumprida esta semana e João Cadete de Matos não foge às conclusões: há grandes assimetrias entre povoações, nalgumas aldeias não se consegue sequer fazer chamadas de voz e no acesso à Internet o défice é ainda maior.

As falhas de cobertura são transversais a todas as operadoras e confirmam os alertas sucessivos de autarcas. Mau acesso a redes de comunicação é sinónimo de problemas para alunos que queiram fazer pesquisas e seguir aulas ou outras iniciativas online, de falta de competitividade na atração de novas empresas, de falta de qualidade e rapidez em serviços públicos. É sinónimo, em suma, de uma discriminação que os estudos existentes demonstram ser generalizada no Interior.

O problema pode ser minúsculo e invisível num país dividido entre o receio de uma nova vaga pandémica e o entusiasmo com a Seleção que hoje entra em campo em Sevilha. Só para quem não os vive problemas desta natureza, reais e com efeitos na qualidade de vida das populações e no desenvolvimento dos municípios, podem ser minimizados. Este é o verdadeiro retrato de um país que discute o 5G e tem a transição digital entre as prioridades da década, mas tarda em fazer caminho para esbater assimetrias.

Ser autarca, empresário ou residente num município dos chamados territórios de baixa densidade pressupõe quase sempre ter de fazer esforço redobrado para atingir resultados idênticos aos conseguidos noutras faixas do país. Não adianta romancear a discussão e falar na qualidade de vida ou nos ganhos não mensuráveis de quem escolhe o Interior. Há desvantagens que não deveriam ser aceitáveis e o são cada vez menos, a cada ano que passa e a cada envelope comunitário que é aprovado. Não há "bazuca" que nos valha se não conseguirmos corrigir as deformações num país tão pequeno (e facilmente próximo) que somos.

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