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Opinião

Uma estranha coreografia

Uma estranha coreografia

Ano após ano, o guião repete-se. A proposta de Orçamento do Estado entra no Parlamento, os partidos fazem a sua apreciação sobre a falta de ambição do documento, ouvem-se análises sobre os riscos de um chumbo e os cenários de crise política, o presidente da República vem a terreiro exigir estabilidade e responsabilidade e, no momento crucial de contar votos, há sempre quem alinhe no passo de dança do Governo.

É verdade que são cada vez maiores os riscos de os partidos à Esquerda do PS entrarem nesta coreografia desalinhados. O BE já quebrou no ano passado o compromisso com o Executivo de António Costa, e a fidelidade do PCP não tem merecido sinais positivos dos eleitores nas idas às urnas. Mas a proposta de João Leão tem várias almofadas financeiras e alçapões que dão larga margem de negociação para satisfazer as exigências dos parceiros - e, de caminho, dos sindicatos, que aumentam o tom da contestação social.

É inevitável que cada partido tente inscrever as suas bandeiras e mostrar força junto do seu eleitorado, de tal forma que até se olham de lado a ver quem está a ganhar maior protagonismo, com trocas de acusações de bluff e alguma dramatização pelo meio. Esta é a hora de o Parlamento imprimir o seu ritmo e essa influência é a mais-valia democrática de um Governo sem maioria.

Estranheza, só nas análises que carregam demasiado em expressões como crise política, eleições antecipadas, fim irremediável da parceria à Esquerda. A criação desta narrativa desafinada já se tornou um hábito, mas o Governo tem muitas vias abertas para aproximar posições. Não apenas abrindo cordões à bolsa, mas cedendo em propostas legislativas. António Costa foi, aliás, muito claro no guião: leis laborais, Função Pública e SNS são as prioridades. Alguém acredita em eleições antecipadas e orçamento em duodécimos, numa altura em que está em causa a entrada de verbas do PRR?

*Diretora

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