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Vícios privados de efeitos públicos

Vícios privados de efeitos públicos

O caso Raríssimas dominou a última semana e levou à demissão do ex-secretário de Estado da Saúde. Depois da transmissão de uma constrangedora entrevista pela TVI, Manuel Delgado admitiu processar aquele canal, invocando ter sofrido devassa da sua vida privada. Em Portugal predomina uma cultura de reserva sobre a vida pessoal dos políticos e vale a pena ponderar se e quando é que os limites entre a esfera pública e a esfera privada podem ser ultrapassados.

Em teoria, uma eventual relação amorosa entre a fundadora da associação e o então consultor da Raríssimas seria do foro privado. Mas o caso muda de figura a partir do momento em que dela decorrem comportamentos que afetam a esfera pública de Manuel Delgado. Desde logo porque há uma suspeita de gestão danosa, da qual o ex-governante beneficiou, suficientemente grave para suscitar uma investigação do Ministério Público. Há, além disso, declarações divulgadas reveladoras da absoluta contaminação entre associativismo e política. E comportamentos que põem em causa a confiança nas qualidades éticas e na transparência do antigo secretário de Estado.

Não se exige santidade a nenhum governante, nem existe qualquer relação entre as características morais e a qualidade do exercício político. Aliás, a avaliação moral varia ao longo dos tempos e basta ver a abissal diferença de juízos de valor que nos Estados Unidos sentiram John F. Kennedy e Bill Clinton. Mas a vida privada é relevante quando dela decorrem consequências para a atividade pública. Ou quando expõe contradições entre o que alguém diz e o que efetivamente faz.

Uma pergunta clássica permite perceber de forma imediata o que está em causa: seria compreensível que o coordenador da luta contra a toxicodependência fosse um consumidor habitual? O desempenho de funções públicas implica que os detentores destes cargos estejam sujeitos a um escrutínio diferente do de um cidadão comum. E se consideramos legítimo coscuvilhar a vida de atores, jogadores de futebol e cantores, por que razão se há de considerar que quem gere bens públicos está isento de uma conduta compatível com as funções que ocupa?

Em França acaba de se aprovar a legislação que proíbe deputados e outros eleitos de contratar familiares. Por cá temos muitos passos a dar na moralização da vida pública. Não se trata de andar a meter o nariz no que é estritamente íntimo. Mas sempre que a intimidade afetar dinheiros e decisões de todos nós, o escrutínio é imperativo.

* SUBDIRETORA

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