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Joana Almeida Silva

#Igreja

Apenas sete casos, das mais de 300 denúncias feitas sobre abusos sexuais cometidos por membros da Igreja, estão a ser investigados pelo Ministério Público. São sete, não são nem o pico mais alto do icebergue, mas são qualquer coisa. Uma ínfima luz que paira sobre a impunidade dos que sempre esconderam os seus podres debaixo das alvas enquanto pregavam o bem ao Mundo, a bater com a mão no peito. A impunidade não pode vestir-se desse branco pureza. Quem comete crimes, tem de os pagar. Quem os sabe, tem de os denunciar, sobretudo quando tem como dogma de vida a proteção dos inocentes. Os casos de abusos sexuais levam décadas a chegar à luz, basta ver que duas em cada três denúncias são de vítimas que têm hoje mais de 46 anos de idade, e não podem bater na trave. É o Papa que quer justiça. Não sei se há lugar à redenção.

Joana Almeida Silva

#caraA/B

O S., sabendo como gosto de conversas existenciais embaladas pela Lua, disse-me, como quem quer começar uma discussão, que todos temos uma cara A e uma cara B. A teoria não oferece grande resistência. Basta pensar que um psicopata pode ser um filho amoroso para a mãe. Todos podemos, a certo momento, ser uns fofinhos ou um Gru maldisposto. Vejo é muita gente que parece que come limões amargos ao pequeno-almoço - imaginem aqui aquele boneco verde que aparece nas mensagens de telemóvel - e que se irrita com as mais pequenas coisas. Deve ser tudo isto, as muitas caras que nós temos, a origem de tanta guerra no Mundo. Se cada um não consegue ceder um milímetro, ou até alguns centímetros, mais que não seja para dar passagem a algum carro quando o semáforo fica verde, não há cara simpática que resista. E as reações nem sempre são proporcionais.

Joana Almeida Silva

#sufoco

É uma espécie de inferno que desce à Terra, meio crime, meio negligência. E, no meio das chamas, qual salvador divino, os olhos prendem-se na simplicidade de uma imagem, de uma ovelha salva do sacrifício de morrer também ela nas chamas, onde mergulham para sempre perdidos outros animais, bens e casas. Os incêndios são uma prisão sem condicional. Que tempo faz no teu país? No Porto, diria que 30 graus é incrível. Isso é para meninos, na minha Austrália, há dias em que o termómetro bate nos 50! Tive esta conversa há uns anos e quando me dizem que este pode ser o verão mais fresco dos que estão para chegar - sim, mais fresco - aí apetece-me dizer aos negacionistas das alterações climáticas que mudem para Marte. A senhora da loja de eletrodomésticos diz que as ventoinhas esgotaram. Do mal o menos, o que está esgotado é este nosso massacre ao planeta.

Joana Almeida Silva

#aborto

A demagogia em questões de vida e de morte é desnecessária. Falei com muitas das mulheres que conheço e nenhuma, nenhuma, queria prosseguir uma gravidez que resultasse de uma violação. "Isso nem se discute". Têm razão. E, além disso, têm o pensamento alinhado com Marcelo Rebelo de Sousa, para quem o tema "deixou de existir como questão". Admito que a minha amostra possa estar condicionada, mas do pequeno para o grande círculo a posição não mudou. Foi tão, mas tão longo o caminho para chegar aqui, e basta um retrocesso civilizacional do outro lado do Atlântico para inchar algumas vozes que sempre alegaram que a IVG era um incentivo ao aborto, que era crime. Não, não é. Sabemos disso há muito e está escrito na lei desde 2007. Algumas liberdades são incanceláveis. Como a liberdade de decidir o que fazer numa gravidez.

Joana Almeida Silva

#Jéssica

Pergunto-me como? Como foi possível matar mais uma criança à pancada? Como foram capazes de a torturar dias a fio? Como foi possível não a socorrer? Ela tinha sido sinalizada. O meu tio António dizia ontem que "é de se ficar tolo". E é. Há uns tempos escrevi aqui que me assustava saber de tantos monstros à solta. São tantos. O que me sossega é saber que para cada monstro há muitas mais pessoas do bem, a combater e a prevenir casos destes. A presidente de uma Comissão de Menores contou-me certa vez que lhe tinham literalmente despejado três crianças pequenas à porta. Atiradas de um carro, com uma muda de roupa nos braços. Pobres inocentes. Foi aqui, bem perto do mar. Se uma sociedade - Estado, famílias, instituições - não consegue cuidar das suas crianças, não tem futuro. Agora, foi a Jéssica. Há dois anos, foi a Valentina. Não me esqueci.

Joana Almeida Silva

#fogo

O M. ainda não chegou aos 25. Vive no mundo bonito dos jogos e das apostas. Viaja volta e meia, mas quem o conhece sabe que a cara não mostra a alma. Sofre de ansiedade. Como, se é tão jovem? Sofre de se saber frágil. Como, se tem tudo? Parece viver no pico da existência. Não vive. A doença mental não escolhe idades. Mais uma vez, a OMS veio chamar a atenção para este problema que cresceu durante a pandemia e que afeta mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo. O M. faz parte da estatística. Não é velho, não tem demência. É muito novo, mas tem dores da alma, aquelas para as quais se tem de investir mais, em todas as faixas etárias, porque os custos do tratamento são, como sempre, bem maiores do que os que poderiam ser aplicados na prevenção. A doença mental é uma espécie de fogo descontrolado a consumir a sociedade.

Joana Almeida Silva

#bebé

Eram os 40 anos do 25 de Abril e quando entrei no escritório de António Arnaut disse-me que se ele era o pai do SNS, "a mãe era a Constituição". Deu-me para as mãos um molho gordo de folhas com sublinhados e anotações. "Escrevemos aqui o que é hoje o SNS". Quão ultrajante é para esse projeto maior do país saber-se de uma grávida que perdeu um bebé por haver um serviço de urgência encerrado por falta de médicos. Não pode acontecer. Não pode repetir-se. Apurem-se todas as responsabilidades. A primeira comissão para a saúde materna e neonatal foi criada nos anos 80. O pediatra Octávio Cunha, que integrou essa equipa, ajudou a delinear o plano para acabar com a trágica taxa de mortalidade infantil da época. "Hoje, é uma catástrofe quando morre uma grávida", disse-me durante uma entrevista. É também uma catástrofe quando morre um bebé.

Joana Almeida Silva

#felicidade

A felicidade é um conceito e um princípio contemporâneo. A "felicidade é epidémica", disse-me Edgar Cabanas Díaz, ao telefone, numa entrevista. É autor de um livro que compara a busca da felicidade a uma espécie de ditadura do sorriso. Temos mesmo de estar sempre felizes? Não temos. Podemos ter dúvidas, como assumiu o vocalista dos Metallica, num concerto esta semana, ou Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ao cantarem "Tristeza não tem fim, felicidade sim". A luta pela felicidade no mundo livre tem dias, ou momentos, de glória. Mas há todo um mundo, ainda demasiado grande, cuja luta é por liberdade e igualdade. Princípios esses bem mais antigos. Em dias tão rápidos, é inútil perseguir a felicidade a cada minuto. Essa obsessão é demencial. Ser feliz deve ser um objetivo permanente, não um fim que gera frustração e angústia.

Joana Almeida Silva

#fogueiras

Temo que o prolongar da guerra faça amenizar ou até alterar as posições de fraternidade tão amplamente manifestadas nestes mais de 40 dias de extrema violência. Aqui e ali, vou ouvindo comentários que antecipam essas mudanças perigosas. Quando a Segurança Social anunciou a criação de mais lugares nas creches para refugiados ucranianos houve quem se erguesse contra a medida, criticando a inesperada elasticidade governativa por ser "discriminatória" para com os portugueses ou outros refugiados. O mesmo ouvi ontem sobre os médicos ucranianos que vão "passar à frente" de outros refugiados na luta para entrar no SNS. São formulações de análise demasiado simplista, pouco rigorosa e ao estilo bitaite. O perigo é que é dessa lenha bitaiteira que se alimentam as fogueiras do populismo e algumas faúlhas ameaçam começar a cair aqui e ali.

Joana Almeida Silva

#Cro-Magnon

O discurso do almirante Gouveia e Melo serve para fuzileiros e para todos os outros, militares e civis. As palavras do chefe do Estado-Maior da Armada são de um pacifista. "Quando vejo alguém a pontapear um ser caído no chão, vejo um inimigo de todos nós, os seres decentes (...) vejo acima de tudo um verdadeiro covarde". É neste pensamento que me revejo e, como leiga, exijo pena máxima para todos os que assassinem alguém à pancada, porque os bárbaros não podem ter atenuantes, muito menos quando sabem que o poder que têm pode ser fatal. A morte do agente da PSP em Lisboa causa tristeza e muita indignação. É chocante a ideia de que alguém pode tirar a vida a outro ser por motivos tão frívolos. Queria acreditar que tínhamos evoluído desde os Cro-Magnon - nome usado na minha terra para insultar quem vive ainda nas cavernas.

Joana Almeida Silva

#diasnegros

Estava a conduzir, o meu miúdo no banco de trás, a sorrir, e a rádio fazia soar as notícias mais recentes da guerra na Ucrânia. O menino da Ana fez um ano na quinta-feira e comentamos quanto nos entristece ainda mais ver tudo isto, agora que vivemos no futuro, projetado nos pequenos passos do crescimento. Um futuro que não será possível para as vítimas dos bombardeamentos. É esta a dimensão que mais importa. Nos vídeos partilhados online, há histórias de famílias que nunca mais vão celebrar um aniversário, nunca mais vão voltar a casa, porque a que tinham foi pelos ares. Os ucranianos vão ser deixados a lutar e a morrer sozinhos porque nenhuma força externa se atreve a desafiar o colosso militar russo, apoiado pela China, mas há uma obrigação de solidariedade com a nova vaga de refugiados criada pelos terrores de Leste.