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Joana Almeida Silva

#pedestais

Os partidos reclamam muito da fraca vontade dos jovens para se juntarem ao mundo da intervenção pública e de debate social, sem olharem para o próprio umbigo. Os dedos só ficam apontados ao estilo gatilho para o lado de fora, mas os casulos de formalidades obsoletas que protegem estas forças são uma barreira altamente condicional a essa mobilização. Não apaixonam porque não são reais, são gravatas suspensas em palavras rodeadas de tanta burocracia quanto a linguagem da fiscalidade. Ora, é tudo isso que afasta as pessoas reais dos políticos, pelo menos, dos que não se apresentam "humanos" como Jacinda Ardern, primeira-ministra demissionária da Nova Zelândia. A política tem de ser real, de vestir-se de carne e osso, como fez esta política, que usou a normalidade como arma. Nestes tempos, não há lugares a pedestais, nem senhores.

Joana Almeida Silva

#pomada

No Secundário, havia um jogo que era responder a questionários. Entre as perguntas sobre o primeiro beijo, o primeiro namorado, etc. surgiam outras sobre o futuro, quantos filhos, qual profissão, etc. Não deixa de ser bizarro que a M. se tenha lembrado disso quando o Governo anunciou o inquérito de idoneidade para novas contratações. Um preâmbulo de honradez, feito em dias, que me parece sabotar pouco as estratégias dos mal-intencionados que querem governar para encher os bolsos. Mas esse crivo já não estava na lei? Vão aplicá-lo nos diferentes níveis de poder político? É que a corrupção é uma competência descentralizada neste país. Mais difícil de expurgar que o demónio do corpo. Tudo o que ajude à transparência é de saudar, mas não me atirem areia para os olhos, o questionário não resolve o problema, só lhe deita pomada.

Joana Almeida Silva

#chiclete

O Canadá vai impedir investidores estrangeiros de comprar casa e a medida pode servir de inspiração do lado de cá do Atlântico. A lei quer controlar os preços desenfreados que colocam o país entre os piores na diferença salários-preço da habitação. Um ranking onde o lugar de Portugal é ainda pior, ou seja, as famílias ganham mesmo pouco face aos milhares de euros que lhes são exigidos para ter um teto. Controlar a onda especulativa que esmaga quem quer comprar casa é um imperativo, mas não sei se o mais recente criado ministério da Habitação vai começar por aí. O mercado louco, louco mesmo, do imobiliário é uma bolha de chiclete sempre a crescer, até ao dia. Se aos preços do metro quadrado juntarmos as maravilhosas taxas Euribor em ascenção, restam às famílias poucas hipóteses de cumprir o sonho de ter um cantinho digno seu.

Joana Almeida Silva

#olheiros

Se o Governo fosse um clube de futebol, a esta hora estava com uma Assembleia Geral Extraordinária marcada, o presidente sob vaias contínuas, dias a fio, etc., etc. 11 demissões em nove meses (não sei se isto vai ficar desatualizado depois de impresso), além de um recorde, é uma desgraça em termos de captação de talentos. Alguém está a falhar, e temo que sejam os olheiros, que não estão a ver a bola com olhos de ver. A instabilidade criada pelo próprio Executivo numa altura em que o Novo Ano se apresenta de um campeonato exigente só pode ser considerada um falhanço: os craques não se têm aguentado, e António Costa só não cai porque tem a maioria absoluta e Marcelo não tem a certeza da existência de uma alternativa estável e indiscutível à Direita, com talentos inquestionáveis. São precisos reforços de inverno, sem rabos presos.

Joana Almeida Silva

#malditos

A imagem de um grupo de mulheres a chorar à porta da Universidade de Cabul tem de nos sensibilizar, mais, de nos mobilizar. Os talibãs, terroristas homens da pedra, impediram as mulheres de estudar no ensino superior. Querem matá-las de todas as formas, também ao nível do conhecimento. Não basta o G7 dizer que este é "um crime contra a Humanidade", tem de retaliar, de ajudar estas mulheres a lutar contra o regime que as coloca abaixo do chão. Homens armados a patrulhar um campus e a impedir mulheres e meninas de estudar deviam ser presos. Os talibãs não enganaram ninguém. Nem quando juraram proteger os direitos das mulheres, nem quando bateram no peito a prometer menos extremismo. Matam uma luta de décadas com isto. A essência de malditos não pode ser reabilitada. Malditos sejam.

Joana Almeida Silva

#sintomas

Durante o jantar, sempre que levantávamos o copo, "Saúde", a A. dizia "mental". Mesmo que entre nós esse seja um tema delicado, até que o momento deu vontade de rir. Esse extra nos brindes é na essência um pedido ao Pai Natal, para uma sociedade mais sã da cabeça, mais leve e livre, porque sem uma mente sã, a alma fica cativa, perdida. Os psicólogos dizem que a procura de ajuda por parte de alunos triplicou desde a pandemia e o ministro da Saúde até garante que a saúde mental será prioritária no Plano de Recuperação e Resiliência mas, num SNS com tantos sintomas de doença, falta saber se vão ser contratados mais psicólogos para os centros de saúde, onde fazem tanta falta, sem listas de espera que desesperam e agravam os sintomas. A cura até pode vir com mais palavras do que medicação mas, sem ações concretas, as conversas não acontecem.

Joana Almeida Silva

#farrobo

A S. vive para ajudar pequenas crianças a transformarem-se em homens e mulheres bons. E, em poucos minutos, desmonta muitos dos casos de hiperatividade. Falta-lhes espaço, rua para correr, garante. No meu tempo, tinha o Farrobo para correr de ponta a ponta, vezes sem conta e, de tanto correr, o sono chegava de rompante. Nem sempre as famílias conseguem, a gestão de carreiras não é igual, os horários, os tempos de vida que se aceleraram num contrarrelógio constante, mas quanto mais monte para calcar, mais mundo para explorar, menos diagnósticos desses se fazem, explica. Até porque a sociedade deixou de se baixar ao nível das crianças e espera delas um comportamento idêntico ao de um adulto, sem birras e grandes alaridos. Temos de lhes garantir o tempo de se sentirem super-heróis, com mais ou menos galos e arranhões. Com mais liberdade, porque as redomas não deixam medrar as plantas.

Joana Almeida Silva

#direitos

O caminho dado por França para inscrever na sua Constituição o direito ao aborto parece-me uma iniciativa inspiradora. Por agora, é só a aprovação dos deputados da proposta e, se a extrema-direita de Le Pen não vê interesse em trazer o assunto para debate na praça pública, há casos de retrocesso em matéria de direitos humanos que nos deviam obrigar a olhar para a Lei Fundamental como um organismo vivo, em vez de a subjugarmos a uma peça de museu. O caminho para consagrar este direito não será rápido, ou fácil, mas exigem-se mecanismos de proteção mais poderosos quando as ameaças populistas sobrevoam como abutres as liberdades adquiridas. E o direito à interrupção da gravidez é um desses alvos. Não podemos seguir o lema "quem vem atrás fecha porta", os direitos não são herdados, nem inatacáveis.

Joana Almeida Silva

#desgraceiros

Prepara-te que a China vai mandar mísseis para Cuba para atingir os EUA, viste a Pelosi em Taiwan? Agora sim, é desta que o Brasil entra em guerra civil, viste a cara do Bolsonaro? E o míssil que caiu na Polónia, já estão todos reunidos, vem aí a Terceira Guerra Mundial antes de comeres as passas no Ano Novo. No outro dia, um amigo disse-me que era um pessimista, respondi que tal facto nem era mau de todo - a falta de boas perspetivas pode ajudar a não sofrer desilusões -, mas nada se compara aos "desgraceiros": pessoas que anseiam pela implosão da terra, o valha-me Deus geral, o raio do Texas (versão dos filmes com pistoleiros) instalado em cada esquina. Já disse que sou uma otimista? Talvez seja por isso que me incomode ver tanto histerismo em torno de assuntos de natureza delicada, por parte dos hipocondríacos do apocalipse. Imaginem-nos a liderar nações! Os "desgraceiros " não se insurgem contra a guerra em África, nem contra os israelitas prenderem crianças todos os dias, e metem um pano em cima da Coreia do Norte e do Iémen, porque não é muito mediático. Talvez não seja falta de noção, é mesmo falta de emoção na vida.

Joana Almeida Silva

#pirilampos

Quando era uma miúda, mais pequena, os pirilampos iluminavam um caminho de terra em frente à minha casa, até à rua principal. Já não vejo um pirilampo há anos, apesar da Sara garantir que na aldeia transmontana dos avós ainda os há às carradas. Os pirilampos precisam de um mundo limpo para sobreviver, o mesmo Mundo que precisamos nós. Acontece que nós temos a possibilidade de nos mantermos confortáveis por um período de tempo até que a nossa sobrevivência seja realmente posta em causa no seu todo. Construímos esses artifícios, bolhas de ar temperado, que mais não são que alarmes de telemóvel a adiar a hora de levantar e agir. A COP27 que decorre no Egito não está assim tão longe dos meus pirilampos e, ao mesmo tempo, parece um assunto galático para a maior parte de nós. Nem está longe do maior escaravelho português que o projeto VacaLoura , de ciência cidadã, quer referenciar, para proteger a espécie. Tudo se liga à vontade de querer sobreviver , de garantir que as próximas gerações podem ver pirilampos e escaravelhos ao vivo, em estado selvagem. Discutir o clima não é um esoterismo ou uma paixão dos mais novos, é uma urgência inadiável.

Joana Almeida Silva

#massarroz

Uma empresa informou as redações que durante os próximos cinco meses vai dar um cabaz alimentar aos trabalhadores. Na imagem a ilustrar a medida: arroz, massa, leite, azeite, óleo, salsichas, sal e uma caixa de cereais. Pareceu-me uma medida de caridadezinha. Saírem assim os funcionários porta fora ao final do mês com uma caixa de comida da empresa soou-me a esmola. Não que alguém se importe com a dádiva, claro está que tudo o que for para ajudar é bem-vindo, tomara a tantos terem essa ajuda, mas fiquei a pensar porque não aumentavam eles os salários. As empresas não são obrigadas a pagar mal e podem ajudar a combater a inflação com salários mais dignos. Não precisam de o fazer com dois quilos de massa e de arroz. Acontece também que, imaginemos, se o cabaz corresponder a 100 euros, e se a empresa aumentasse um trabalhador nesse valor, teria de gastar o dobro, isto porque o Estado vinha arrecadar a sua parte do aumento. A tributação dos rendimentos é demasiado pesada e se uma empresa aumenta o salário, no final do dia quem fica a esfregar as mãos é o Estado, que fica gordo com o seu belo quinhão desse aumento, e não o arrecada em salsichas.

Joana Almeida Silva

#dançaBCE

O Banco Central Europeu (BCE) está a dançar com dois pés esquerdos e a pista não se avizinha nada facilitadora dos movimentos. Aumentar a taxa de juro para refrear a força da inflação causada ora pela Guerra na Ucrânia, ora pela ganância, não facilita a intensidade com que o corpo se expressa. A analogia que me veio à cabeça quando a presidente do BCE, Christine Lagarde, anunciou uma taxa de 2% bateu muita certa com o pensamento de Marcelo Rebelo de Sousa que pediu um Orçamento do Estado "flexível" quanto se possa, para responder aos tempos imprevisíveis que estão para chegar e, na dança, a rigidez é um entrave ao impulso. Lembro-me de um tempo, não muito longe, era 2009, onde andava entre a Qimonda, a Rohde e o bingo do Brasília - insolvências, trabalhadores à porta, despedimentos. Lagarde falou nessas duas palavras dementors (uns monstros da saga Harry Potter que sugam almas): desemprego e recessão. Avisou que o aumento das taxas de juro vai continuar. Na pista, o "gargouillade" é um dos maiores desafios de quem dança (disse-me a Catarina que é apaixonada por esta arte) e há sempre quem caia ao fazê-lo, esperemos que a nossa queda não seja muito dura.

Joana Almeida Silva

#pãosaospobres

A prenda do Governo começou esta semana a chegar. A minha amiga Ana puxou do alfabeto para reclamar prioridade e diz que já encomendou o tapete e o candeeiro da sala que andava a namorar. Tal é a ânsia pela prenda de Costa que os sites e apps dos bancos foram abaixo no dia 20. Nem no Pólo Norte o Natal chega tão cedo. Os 125 euros são uma côdea atirada aos pombos. Medida que em nada afeta o aumento de pessoas pobres. Pólvora seca. Nem mudam a história da senhora Maria, que uma vez entrevistei. Guardava parte do almoço dado numa IPSS para o jantar - "sabe, menina, ele não estica" - e fazia de um prato dois. Lembro-me muito dela. Sei sim, pouco mais de 300 euros de reforma não chegam para pagar renda e medicamentos e comprar salmão, dona Maria. Sei que o seu outubro até pode ser melhor, mas só um bocadinho. Os 125 euros duram bem menos que os 45 dias que a primeira-ministra britânica aguentou. Os velhinhos, permitam-me o termo que é aqui escrito com carinho, são de quem mais me lembro. Coloquem alarmes no atum e os bacalhaus sob vigilância apertada, mas não tirem o pão aos pobres. Aumentem as reformas dos mais vulneráveis.

Joana Almeida Silva

#bispos

A montanha ainda está a crescer e, em princípio, deve ultrapassar o Evereste. Um caso aqui, uma denúncia acolá, uma turma inteira, a maior parte dos casos prescritos e as vítimas relegadas a um sofrimento sem verem castigados os monstros de branco. Os crimes mais graves prescrevem ao fim de 15 anos em Portugal e estes vão ficar sem punição. A criação da comissão para denunciar casos de abusos na Igreja foi o maior farol para expor um crime que de tanta sátira, virou, assim parece, tão corriqueiro como a comunhão. Claro está que não podemos julgar o todo pela parte, mas esta parte é grande e abafa uma boa parte do bem feito pelo todo, ou torna-o mais duvidoso por estes dias. Os números, sobre os quais Marcelo pode não ter sido feliz e por cujas declarações já pediu desculpa - que palavra bonita de ouvir de um presidente da República -, são tão assustadores quanto os casos que parecem não ter fim. Havia de chegar a vez de a Igreja portuguesa expiar os seus pecados. Chegou. Que nenhuma voz se cale com medo, para que o percurso criminal se faça a tempo. É que estes crimes medonhos têm prazo de validade, ao contrário do mal que causam.

Joana Almeida Silva

#transparência

Sempre que a transparência do Governo falha, abre-se mais uma janela para os extremismos, para os vendilhões do templo e para os populismos (não são tudo a mesma coisa?). A polémica em torno dos 133 mil euros em fundos comunitários recebidos por uma empresa do marido da ministra da Coesão é mais uma machadada que os eleitores resistentes têm de enfrentar. Os outros, aqueles milhares que já nem votam, que abandonaram a democracia no seu mais elementar papel, o de escrutinadores dos nomes que sobem à Assembleia da República para decidir os nossos dias, já só fazem like na notícia e siga a ver o que aconteceu aos moais (esculturas megalíticas) da ilha da Páscoa que foram destruídos por um incêndio. E é um corte porque a "obscuridade" traz sempre descrença. Vida longa a esses homens de pedra que resistem há mais tempo que a nossa democracia, cada vez mais em perigo - veja-se o regresso do fascismo a Itália - seja pela falta de transparência ou pelo desinteresse crescente na política. Os Governos têm de ser imaculados, "clarinhos como água", porque o contrário disto é a chama perigosa a que Marcelo aponta, a tentativa de nos fazer regresso à ditadura.

Joana Almeida Silva

#mãesrussas

Se me chegasse a notícia a casa de que o meu filho tinha sido mobilizado para a guerra, virava este mundo e o outro para o meter fora do país no minuto seguinte. Peço desculpa pela minha falta de patriotismo, mas o amor à vida de um filho faria de mim um rato a fugir do navio. Simples assim, sem hipocrisia. Não percebo por isso quem se vira contra as mães russas, contra os homens russos, ou ucranianos, ou de que nacionalidade sejam, que não querem lutar numa guerra porque preferem viver ou porque simplesmente não acreditam nela, nunca a quiseram. Os senhores da guerra não ficam com fome, nem frio, nem feridos, nem a arrastar-se pelas valas comuns. E, na guerra, a maioria dos que morrem é sempre inocente. Que culpa lhes podemos assacar? Podem ser pacifistas ou objetores de consciência aqueles que agora correm para fora do domínio de Moscovo, mas o mundo ocidental não pode achar que todos os russos querem a guerra, da mesma forma que não pode acreditar que todos os ucranianos querem dar a vida pela independência - lembram-se do êxodo de março? Sempre me disseram que as pessoas mais perigosas são as que têm certeza de tudo.

Joana Almeida Silva

#ManelGrande

O meu avô Manel, o Grande - era mesmo assim que era conhecido - dizia, com a sabedoria de quem conhece a terra com as mãos que "tudo tem um fim". Lembro -me muito dele quando penso no que me rodeia. Das grandes coisas, que a guerra vai ter um fim, às simples, que uma constipação também passa. Esta semana, a minha bolha de capacidade de ouvir desgraças rebentou à quarta, com a história da idosa coberta de formigas. A Ana dizia-me ao telefone que ficou revoltada, mas que "estas coisas têm de vir todas cá para fora". Tem a mãe, que não se consegue defender da picada de uma mosca, num lar. Vai visitá-la todos os dias e já viu cenas muito tristes. Que desumanidade existe nestas pessoas que deixam alguém coberto de formigas? Que incapacidade existe na instituição que levou tanto tempo a agir e se mostra tão preocupada em punir quem filmou? Esquecem-se da simplicidade - sem romantismos - de que há sempre um fim, também o deles. É nesse espaço de tempo que não podemos perder a humanidade, ainda mais quando disso depende a dignidade final dos mais inocentes. Que sorte teve o avô Manel, coberto de amor em casa até ao fim.

Joana Almeida Silva

#luz

Na última semana, a União Europeia no seu todo e os governos de cada país repetem, em apelos e em anúncios de novas medidas, o grito do corte no consumo de eletricidade. A meta de reduzir 10% até março do próximo ano será difícil de cumprir em Portugal já que o consumo até é dos mais baixos per capita, o que significa que há pouca margem de manobra. A fatura do mês talvez fomente maior cuidado, mas ninguém esbanja luz. A redução do IVA para 6%, apenas para um consumo de 100 kWh não o permite. A poupança será irrisória - pouco mais de um euro. Não é a fatura no seu todo que vai baixar, oxalá fosse. Pior, um em cada cinco portugueses vive em pobreza energética. Posto isto, como é que se corta o consumo de luz sem investimento de longo prazo quer para consumidores domésticos quer para empresas?

Joana Almeida Silva

#notade125

A máxima do "é tão bom, não foi?" aplica-se na perfeição à medida do Governo. Cada um fará as suas contas. Eu consigo comprar 62,5 quilos de repolho com a transferência de Costa. Uma ninharia, porque passo a vida a fazer sopas. E o coração até é barato. Está em média a dois euros o quilo. Medidas destas são fogo de artifício. É bonito, pufff, já não está lá. Que dá jeito a toda a gente, ai se dá, ajuda a pagar contas da luz e da água, como ouvi a alguns, ou a comprar umas sapatilhas, ouvi de outros. Medida diferente seria baixar a tributação dos salários. Ninguém gosta de ver a folha de vencimento com tanto dinheiro encaminhado para o Estado quando as perspetivas são as de receber uma reforma medíocre. Há mais ideias, como aproveitar a almofada orçamental para abater à dívida, mas isso são planos a longo prazo e o Natal está quase aí, chega em outubro.

Joana Almeida Silva

#carrascos

Os julgamentos públicos são rápidos (não os formais, felizmente), e a análise crítica às notícias deixa de ter tempo de maturação. Quão precioso é esse processo para construir o Mundo. O caso do bebé internado no S. João é disso exemplo. Ora a mãe é um monstro abominável, ora, afinal, a causa para o sofrimento do bebé pode ser uma queda sofrida na gravidez. No espaço de horas, condena-se à forca, mesmo inocentes. E, quão culpada pode ser uma criança de 12 anos por ajudar a mãe num crime? Aos 12 anos, não há culpa, a lei é clara. É-se só infeliz na desgraça de ter adultos maus como exemplo. Se se provam as culpas, cadeia com eles, mas os carrascos das últimas horas e das redes sociais não podem passar desse papel de haters (pessoas que destilam ódio a torto e a direito) ao sabor da maré, sem nunca terem influência nos poderes reais.

Joana Almeida Silva

#Karma

Todos em fila para comprar bilhete online. Há mais 400 mil senhas para conquistar um lugar em Coimbra. Esqueçam, leio num dos meus grupos de WhatsApp, o melhor é fazermos um churrasco e passar as músicas deles. As horas passam e o boneco (que mostra a aproximação à compra) nem se mexe. Dizia-me uma amiga: "Sonhei tanto com este concerto, e, agora, fico sem bilhetes por causa dos espertos que só querem fazer dinheiro e vão vender os bilhetes ao preço de um rim". Depois de mais de 300 mensagens que li na tal conversa/relato, a conclusão a que se chega é que se os sonhos não têm preço, haverá sempre alguém a tentar ganhar mais uns trocos com a paixão dos outros, seja na música ou no futebol, ainda que a especulação seja um crime. Pelas leis do Karma, boicotar os sonhos dos outros deve ter alguma consequência...

Joana Almeida Silva

#TMFD

Os fogos são um problema estrutural de um país hiper-litoralizado e onde existe uma gigante mancha desértica, matéria fácil para as chamas. Se não é a razão da tragédia que se abate de um lado e de outro da serra, da vila, é a razão para que esta seja tão expressiva. Nos meses de manga arregaçada, já nada para prevenir, sobrepõem-se as teorias TMFD - foi mesmo um comandante dos bombeiros quem me falou disto. "Tudo ao Molho e Fé em Deus". Terá sido um desabafo, aconteceu em 2017 e aí a tragédia era grande porque não se falava só de hectares, falava-se de vidas. Perderam-se tantas nesse ano! Desde então, o muito que se alega ter evoluído na coordenação não chega para abafar críticas à falta de meios, nem para impedir a repetição de imagens de pessoas de mangueira a regar os terrenos à volta das casas aos gritos. Onde é que eu já vi isto?

Joana Almeida Silva

Algodão-doce e a miragem das creches gratuitas

As instituições não são poucas, as vagas é que são. Quem, com filhos, não ouviu esta resposta à procura de creche ou inscreveu a criança quando ainda estava grávida ou vive numa zona em que a taxa de natalidade estará abaixo de um ou até mesmo negativa. As outras famílias terão sido bafejadas pela sorte, ou conseguiram apanhar vagas de desistências. É um périplo que mais se assemelha a procurar uma agulha num palheiro. Nas IPSS, assegurar uma vaga implica deixar o nome dos filhos numa lista, com meses de antecedência. Ainda ontem, um amigo me contava que tinha inscrito o filho aos três meses, para ele entrar numa instituição perto de casa aos três anos. E teve de o fazer assim que a menina da IPSS ligou, ou a vaga sumia.