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Opinião

#gavetasodemira

Foi amor à primeira vista. Olhei e apaixonei-me.

Que metáfora bela. É a imagem de um corpo humano decomposto em compartimentos. O quadro de Salvador Dalí tem 85 anos, mas podia ser de hoje.

O rosto que encontrei em "O Gabinete Antropomórfico" está escondido pelos cabelos que caem sobre gavetas - espaços onde se guardam as memórias, os segredos, os desejos e os podres mais íntimos. Um corpo suplicante à vista de todos.

Tenho-me lembrado dele por causa de Odemira - bem sei que a ligação mental parece estranha. Como é que toda uma comunidade guardou em gavetas as amarguras, dificuldades e abusos cometidos contra imigrantes? Como é que o armário se abriu, agora, como se de algo novo se tratasse, a ranger por todos os lados? É uma história mesmo surreal, tanto como a pintura a óleo do espanhol.

Então ninguém sabia o que se passava em Odemira? Ou ninguém resolveu? Ou ninguém quis ver?

Por mais que se fechem, as gavetas teimam em abrir sempre que os móveis são deslocados por terrenos com desníveis e os podres saltam e escorrem pelas corrediças, é que apesar da mente ter recantos sombrios com muitos gigas, também tem limites.

*Jornalista

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