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A armadilhada dívida

Escrevi neste espaço, na semana passada, que Angela Merkel estava a colocar a Europa num jogo de alto risco ao querer tornar permanente o Fundo Europeu de Estabilização Financeira.

O que poderá levar, avançando o modelo alemão, à reestruturação da dívida dos estados mais debilitados - como Portugal, Grécia e Irlanda - e à obrigatoriedade de os investidores terem de assumir uma percentagem maior das perdas em futuros resgates.

Volvida apenas uma semana, os resultados estão à vista. Os juros da dívida daqueles países renovam máximos diários. Dois dos maiores fundos soberanos do Mundo - o russo e o norueguês - avisaram (e estarão mesmo a cumprir) que iam abandonar a compra de dívida dos ditos países periféricos da Zona Euro. E os investidores, acossados com as intenções de Merkel, estão a acorrer ao mercado accionista em detrimento do obrigacionista.

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Se somarmos a isto a desconfiança dos mercados quanto à execução do Orçamento do Estado para 2011 - escaldados com a má contabilidade do corrente ano - temos então os juros da dívida bem perto dos 7%. O tecto imposto por Teixeira dos Santos para uma intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Parece evidente, para todos, que juros de 7% seriam insuportáveis para o Estado. Mas os actuais já não o são? Ao dar um valor aos mercados, o ministro das Finanças tornou-se presa fácil dos investidores e o resultado está, mais uma vez, à vista.

E tudo gira agora em torno do FMI. O dia de ontem comprova-o, ao ser aventada a hipótese de Portugal falir. Sejamos claros, o que o fundo disse é que "alguns analistas do mercado vêem como quase certo a ocorrência de um evento de crédito", isto é, de não pagarmos a conta. Explicando o FMI que, no passado, outros países passaram pelo mesmo "mas conseguiram estabilizar a situação".

Teoria reforçada pelo antigo director-geral do FMI, que acredita que o país não terá de ser intervencionado. Jacques Larosière defendeu, aliás, que esta é a altura de "elevar o 'rating' de Portugal, por todas as medidas que o país já tomou". (Já repararam que as agências andam muito sossegadas?)

Larosière explicou que "os investidores levam tempo até entender as medidas". Sobretudo, digo eu, sem resultados à vista. Estamos armadilhados nesse tempo. E quanto mais demorarem os homens dos cifrões, mais rapidamente o Governo liga para o FMI.

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