Opinião

Assobiar para o lado

Só alguém muito naïf, como eu, acharia que o relatório à trapalhada eleitoral de 23 Janeiro - em que, recorde-se, elegemos apenas o presidente da República - daria uma resposta cabal aos eleitores. Após ler e reler as nove páginas do referido documento fica uma mão-cheia de nada. Falhámos todos: Direcção-Geral da Administração Interna (DGAI), eleitores e Informática.

Num país em que a culpa é sempre de todos, logo morre solteira - veja-se, nesta semana, o arquivamento do caso "Leandro" e da idosa que esteve quase uma década morta em casa, habitação que as Finanças fizeram o favor de vender em hasta pública sem cuidar de saber do paradeiro da proprietária -, por que razão deveríamos agora achar que neste caso seria diferente? Dirão que talvez porque estava em causa o exercício da democracia. De facto, mas nos casos atrás mencionados estava um valor ainda mais fundamental, o da vida.

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Há pormenores do relatório ao processo eleitoral que vale a pena atentar. Primeiro, ficamos a saber que a DGAI optou por não notificar os 770 mil eleitores que viram a sua situação alterada por temer, em parte, um "eventual aumento e concentração temporal de um elevado número de reclamações e pedidos de rectificação, decorrentes do processo de notificação". De génio, de facto, se tivermos em conta que essa omissão resultou, no dia 23 de Janeiro e no espaço de apenas três horas, em 2,5 milhões de pedidos de informação!

Mas pode ainda ler-se no documento que também contribuiu para a concentração da procura de esclarecimento o "facto da Comunicação Social ter começado a difundir (...) a informação de que todos os portadores do cartão de cidadão deveriam verificar a sua situação eleitoral", o que gerou uma "procura desnecessária". De génio, também.

Ou seja, em plena democracia e em pleno século XXI, fico com a ideia de que o melhor é continuarmos todos ignorantes e sem acesso à informação. Porque, se assim for, não há cá problemas de sobrecarga informática, nem relatórios, nem pedidos de quedas de ministros, nem demissões efectivas (uma, note-se). Há umas quatro décadas também havia quem achasse que mais valia manter o povo na ignorância...

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