O Jogo ao Vivo

Opinião

Brincar às leis laborais

Brincar às leis laborais

Desde que tomou posse que a comunicação do Governo tem sido um absoluto fracasso. Como o prova a recente confusão instalada em torno do Código do Trabalho, uma lei fundamental para todo e qualquer português.

Primeiro, ficámos a saber, pelo comissário europeu Olli Rehn, que estavam em curso "reformas estruturais no mercado de trabalho". Depois, o primeiro-ministro veio dizer aos jornalistas que nos "próximos dias" o país saberia mais pormenores sobre as ditas alterações, o que obrigou o gabinete de Sócrates a desmentir qualquer mudança nas leis laborais.

PUB

Estes dois exemplos bastariam para demonstrar a ligeireza com que a matéria está a ser tratada. Primeiro, porque um comissário, por muito importante que seja, não pode anunciar o que o país desconhece. Segundo, porque um primeiro-ministro não pode atirar para a frente esclarecimentos que interessam a todos os portugueses. É faltar-lhes ao respeito.

Mas o problema é que não ficamos por aqui. Porque no final da reunião que as centrais sindiciais tiveram com o Executivo, veio o ministro Vieira da Silva - que tutela a Economia, recorde-se - anunciar que o dito Código seria alterado, por exemplo, para tornar os despedimentos mais baratos para as empresas. Não bastaram 24 horas para que Helena André - quem, aliás, se deveria pronunciar sempre sobre a matéria, não fosse ela ministra do Trabalho - viesse a público lembrar que "é precipitado dizer que vamos fazer alterações".

Caros governantes, em que ficamos? Acham, por acaso, que a lei geral do trabalho é um diploma qualquer que pode ser tratado com tamanha irresponsabilidade? Acham que os portugueses não têm já preocupações e aflições que cheguem? Acham saudável tirar o papão dos despedimentos do armário precisamente no momento difícil que vivemos?

Eu quero acreditar na coerência de Helena André: o objectivo é rentabilizar mecanismos já existentes na actual lei mas que estão subaproveitados. Eu quero acreditar que o meu país não decide o futuro dos seus cidadãos com base em "pressões" do FMI, BCE ou Bruxelas. Mas corro o sério risco de me chamarem "naïf".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG