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Crónica de um resgate anunciado

Crónica de um resgate anunciado

Sócrates ter-se-á irritado, ontem, em Bruxelas, quando os jornalistas questionaram a capacidade de financiamento do país. Mas a pergunta é mais do que legítima. E não é por dizer que "temos dinheiro suficiente" que acalma quer os mercados quer os portugueses. Porque todos já ouviram falar no fim da crise, na boa execução orçamental e na retoma económica. Ouviram, mas não viram.

Os 13 mil milhões de euros que o Estado conseguiu este ano nos mercados serão, ao que tudo indica, suficientes para os 4,5 mil milhões que terá que amortizar dentro de duas semanas. O problema coloca-se na tranche de igual dimensão que nos aguarda já em Junho. A precisa altura em que o país irá a votos. E com o mercado da dívida seguramente fechado às nossas necessidades.

O que seria evitável do ponto de vista da integridade da nossa soberania parece inevitável do ponto de vista financeiro. O "resgate", ou a realização de um empréstimo bancário, como já se fala, está em curso. Pode o primeiro-ministro achar que não, mas o certo é que o presidente do Eurogrupo até já fez as contas: 75 mil milhões de euros. Uma revelação ela própria evitável, como tantas outras de altos responsáveis da Zona Euro.

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Mas mais irritada do que Sócrates parece estar Angela Merkel, num furioso puxar de orelhas ao Parlamento português e a Pedro Passos Coelho. Não basta dizer que vai cumprir as metas de défice acordadas com Bruxelas, tem de explicar de que forma serão atingidas.

E se o PEC IV, essa real moção de censura, era duro, tudo indica que o V, que poderá ver a luz do dia ainda antes de termos um novo primeiro-ministro, será ainda mais severo. Tanto do lado da despesa - cortando a eito na Função Pública - como do lado da receita - aumentando ainda mais os impostos.

E sobre este último ponto há que sublinhar o gravíssimo erro de Passos Coelho. Ainda o país estava a acordar da queda do Governo e o líder do PSD já avançava que poderia ter de subir o IVA em dois pontos percentuais, para os 25%. Ele que sempre acusou Sócrates de seguir a via mais fácil, a da receita. Ora mais fácil e imediato do que subir o IVA, que toca a tudo e a todos, não há! Sócrates errou quando disse que não aumentava os impostos e depois subiu o IVA. Ao menos com Passos Coelho já nem isso esperamos...

P.S. Tudo isto sem sabermos ainda qual a real dimensão do défice de 2010, que poderá ficar acima dos 8%!

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