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O país dois mil milhões

O país dois mil milhões

Para compensar a afirmação - quero acreditar que irreflectida - do governador do Banco de Portugal de que o país já está em recessão (o que, não constituindo novidade, não deve ser anunciado aos quatro ventos), foram ontem publicados em "Diário da República" os encargos financeiros com a linha de TGV Poceirão-Caia. Qual recessão, contracção ou estagnação. Nós estamos é ricos!

Façamos, como alguém disse, as contas: os 165 quilómetros de linha que nos permitirão ir às compras algures entre o Poceirão e Caia, quiçá Vendas Novas, vão custar 2,1 mil milhões de euros (sem IVA...). Mais 430 milhões do que o anunciado nem há um mês pelo ministro António Mendonça, mais 740 se tivermos em conta o contrato de concessão assinado em Maio.

Para percebermos a proporção do gasto: os cortes salariais aplicados à Função Pública vão gerar uma poupança de mil milhões. No total, este troço vai custar tanto como toda a ligação Lisboa-Madrid (2,2 mil milhões), que tem uma extensão total de 640 quilómetros. Está fácil, pois, de ver que a linha que nos colocará na capital espanhola vai custar um balúrdio. E nem sequer lá estão incluídos os dois mil milhões necessários para construir a Terceira Travessia sobre o Tejo. "Last but not the least" , estima-se que a alta velocidade, a 40 anos, gere receitas de igual valor. Estamos quites!

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Dos números, passemos então para o rigor dos compromissos políticos - tão apregoado nos "powerpoint" que nos apresentam o projecto do TGV no site do Ministério das Obras Públicas. Em finais de Setembro passado, no Parlamento (ainda não estava o Orçamento do Estado fechado com o PSD), António Mendonça elogiava os 900 milhões de poupança face ao valor acordado em 2005, aquando do memorando de entendimento com Espanha. Dizia que resultava da "preocupação do Governo com encargos para o contribuinte e para economia".

Portanto, para além de não querer saber nem do contribuinte nem da economia, o Governo demonstra ainda total falta de bom senso ao insistir no luxo do TGV. E o PSD, por sua vez, volta a levar uma bofetada ao ver, mais uma vez, defraudado o acordo que Eduardo Catroga selou com Teixeira dos Santos. Como no referido documento não especificou o TGV e se ficou apenas pelas parcerias público-privadas (PPP), fica agora a ver o comboio passar enquanto uns quantos ilustres revêem o esquema das PPP. Um mau negócio, tanto económico como político.

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