Opinião

O raide franco-alemão

O raide franco-alemão

O dia de ontem pode vir a revelar-se determinante para o futuro da Zona Euro, conforme a concebemos. E enquanto Governo e PSD jogavam, mais uma vez, às escondidas, com anúncios de disponibilidade para negociar e estratégias palacianas que incluem revisões constitucionais (?!), Bruxelas assistia, incomodada mas acomodada, ao raide franco-alemão.

Como não há almoços grátis, a Alemanha cobrou caro o seu apoio ao plano de resgate a estados-membros altamente endividados. Sobretudo porque estava prestes a ver o seu próprio Tribunal Constitucional vetar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira.

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Vai daí, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, uniram--se para exigir alterações ao Tratado de Lisboa com vista a reformar a Zona Euro. E com sucesso, porque ficou já acordado que, em Dezembro, o presidente do Conselho Europeu terá de apresentar uma proposta para tornar aquele fundo permanente.

O objectivo de Merkel e Sarkozy é que bancos e outros credores sejam obrigados a assumir a suspensão ou o atraso dos pagamentos de um Estado, com a ajuda do FMI. A ideia, segundo Merkel, é que não seja apenas o contribuinte a pagar. Mas Espanha, por exemplo, defende que devem ser os países vizinhos a resgatar o Estado em dificuldades.

O modelo, esse, está agora nas mãos de Van Rompuy que, no entanto, deixou já claro que "não se trata de abrir o Tratado de Lisboa e de iniciar um novo debate institucional". Até porque a Irlanda fez questão de recordar que o actual Tratado exigiu um referendo interno, tendo o Reino Unido deixado claro que não apoiaria mais transferências de poder para Bruxelas.

Mas as pretensões franco--alemãs não se ficam por aqui, tendo implícitas sanções políticas no mínimo, digamos, antidemocráticas. Os estados que se encontrem em incumprimento orçamental pura e simplesmente passariam a perder o seu direito de voto dentro da União Europeia. Se aplicado ao momento actual, isto significaria, por absurdo, que o primeiro-ministro grego passaria a mero joguete.

Ideia que, para já, fica posta de parte, mas que Rompuy se compromete a analisar para o ano, sob fortes protestos, nomeadamente de Viviane Reding que, em entrevista ao "El Mundo", disse que a França e a Alemanha "estão a causar muitos estragos na UE". Um jogo de alto risco, para seguir atentamente.

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