Opinião

Pagar a conta mais uma vez

Pagar a conta mais uma vez

Há dias assim. Que dificilmente se esquecem. Em que o Mundo se verga perante a força da Natureza e se comove com as irreais imagens que nos chegam do Japão. Em que, e reduzidos à nossa expressão, nos sentimos, mais uma vez, defraudados e enganados. Mais um soco no estômago, a seco. Sem dó nem piedade.

Já todos sabíamos que vinha aí um Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV, mas já? E tão brutal? Convém reflectir sobre os números. As medidas agora anunciadas terão um impacto de 4,5 % do PIB entre 2011 e 2013 - oito mil milhões de euros!!! Só para o corrente, há um reforço da ordem dos 1,2 mil milhões. Ano esse que já tinha sido alvo de um PEC e de um Orçamento do Estado, em que se cortaram salários aos funcionários públicos e se aumentou a taxa máxima de IVA para os 23 %.

Pode Teixeira dos Santos vender a ideia de que se trata de uma "precaução adicional" face à volatilidade económico-financeira. Quanto ao leitor, não sei, mas eu nessa não caio. Alguma coisa falhou para que o Governo necessite agora de um ajustamento de 0,8 % do PIB. E de forma inconsciente, Sócrates isso mesmo revela com as duas declarações. É que, no final de Fevereiro, admitia novas medidas unicamente se a execução orçamental assim o determinasse. E ontem veio dizer que a mesma está a "correr bem, para não dizer muito bem".

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Em que ficamos? A que se devem estes 1,2 mil milhões? Os submarinos estão pagos. E agora? É o gigantesco buraco do BPN em que o Governo se meteu? É o faraónico TGV? É pura e simplesmente a falta de controlo do Sector Empresarial do Estado? Quem paga a conta devia, no mínimo, saber o que lhe está a ser cobrado. O Executivo deve-nos isso.

Pode Bruxelas saudar o novo pacote de austeridade. Feito, aliás, à medida das pretensões franco-alemãs, numa falta de independência só explicada pela necessidade de financiamento. Mas o problema persiste. Os juros a cinco anos ultrapassaram, ontem, os 8 %, com os mercados a não fazerem fé em mais um PEC. E são aqueles mercados que determinarão a intervenção ou não de um BCE ou de um FMI. E ainda não chegamos a Abril, altura em que o BCE admite subir os juros.

Temo que cheguemos ao fim de todo este processo ainda mais pobres do que já estamos, com uns estrangeiros a subverterem a nossa soberania, sem Governo que se veja e sem ponta de integridade. Vistas as coisas, já nem sei o que é pior.

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