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Opinião

A história interminável do campeonato

A história interminável do campeonato

Nove meses a sofrer na esperança de um grande contentamento final. Podia ser o resumo de uma gravidez, mas falo do campeonato.

Este ano, ainda foi pior: uma gestação futebolística de 12 meses! Já tinha visto o Porto sagrar-se campeão em abril, às escuras, pensei que o universo não tivesse nada mais exótico reservado para nós, mas agora vi um triunfo em julho, num estádio vazio. Um dia, contaremos a história aos nossos netos. Mas só num dia em que eles não tenham sono nenhum, porque é uma narrativa longa e que dá cabo dos nervos. Tipo capuchinho vermelho e o dragão mau. Quem diz capuchinho pode dizer barrete, e onde se lê mau, pode ler-se insaciável, que o bicho não é maldoso, tem é muita fome (desculpa que podia ser usada também pelo lobo depois de ingerir a avozinha).

Agosto

O Porto perde o primeiro jogo da liga e faz o último jogo da Champions com o Krasnodar. Pouco tempo depois, enfrenta um Benfica em grande, que depois de 5-0 ao Sporting achava que, com o Porto, menos de 6 era derrota. Acabaram por ser 2, de Zé Luís e Marega, que aproveitou a celebração do golo para deixar claro que não estava gordo. Portanto o maliano começou a época a enfrentar bodyshaming. Mal sabia o que estava para vir.

Setembro

O momento mais emocionante do mês dá-se em Portimão, não tanto por Marcano ter feito o 3-2 aos 90+8, mas pelo facto de o Porto ter conseguido converter um penalty.

Outubro

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O Porto recebe o líder, Famalicão, que passa a ex-líder Famalicão. Uma semana depois, empata nos Barreiros e é ultrapassado pelo Benfica, passando a ser ex-líder Porto, para não se armar em engraçado. Conceição lembra que nada está perdido: "Isto é uma maratona e precisamos de toda a gente junta", longe de adivinhar que meses depois isso de "gente junta" será proibido.

Novembro

A mulher de Uribe fez anos. Três jogadores (além do marido) estiveram na festa: Marchesin, Luís Diaz e Saravia (ainda se lembram?). Deitaram-se tarde e o míster, sempre compreensivo, deixou-os descansar excluindo-os da convocatória para o derby da Invicta.

Dezembro

Belenenses 1-Porto 1. O momento mais animado deu-se ao intervalo - o que diz muito sobre o jogo -, com o treinador da BSad a gritar "ó boi, deu-me um soco!". "Quem é o boi?" tornou-se um dos grandes mistérios da humanidade, rivalizando com aquela novela da TVI em que se perguntava "quem é o tubarão?". Spoiler: em "Tempo de viver", o pérfido tubarão era Gonçalo. Na liga portuguesa, o boi afinal não existe. Quando prestou declarações, o treinador Pedro Ribeiro corrigiu: "disse Rui, não boi".

Janeiro

O Porto vence em Alvalade, matando um borrego com 11 anos. Calma, vegans: é jargão futebolístico para quando se acaba com longos anos sem ganhar. Passados alguns dias, o Braga ganha no Dragão e mata um borrego ainda maior, de 15 anos. Mais valia terem organizado uma matança do porco, e ninguém se chateava. O Porto desperdiçou dois penalties e o Braga aproveitou dois cantos, que são oportunidades muito mais flagrantes de golo, como se sabe. Na semana seguinte, o FCP foi a Braga e voltou a perder uma final da Taça da Liga, que é daquela carne de borrego que já sabe a velho, mas que Conceição insiste em querer provar. De forma sábia, a equipa permitiu um golo aos 95, para evitar a tradicional derrota nos penalties. No fim, Sérgio disse que faltava união dentro do clube e pôs o lugar à disposição do presidente. O presidente não quis.

Fevereiro

O SLB vinha ao Dragão dar a machadada final no campeonato e ficar a 10 pontos. Isso era certinho. O pró-forma saiu mal, o Porto venceu e o Benfica retirou daí as devidas ilações, de forma a melhorar: eram precisos árbitros estrangeiros! Na semana seguinte, perde na Luz com o Braga. Provavelmente por ter sido Hugo Miguel a arbitrar e não um Hugh Michaels. O Porto vence em Guimarães e desta vez Marega foi insultado por causa de outra característica física, mas que não prejudica a performance: ter pele escura. Aliás, até favorece quem possa ter mais barriga, pois o preto emagrece.

Março

Benfica perde, Porto ganha e passa para 1.o. Na semana seguinte, o Benfica empata e o Porto tem a chance de aumentar a distância. Marca o 2-1 ao Rio Ave aos 77, mas aos 83 o golo é anulado, por fora de jogo de 3 cm. Muitos números, eu sei, mas o que importa reter é este: 1. O Porto tem um ponto a mais e está em 1.o, quando o campeonato é interrompido por uma pandemia. Agarrado também ao número 1, o Benfica recolhe pareceres jurídicos para saber se é possível o campeão ser determinado pelos jogos da 1.ª volta.

Junho

Regressa o tão aguardado futebol! O Porto entra a perder, com o Famalicão, com uma oferta de Marchesin. O Benfica recusa, educadamente, a prenda, e empata com o Tondela. A partir daqui o Porto vence todos os jogos, menos o teoricamente mais fácil, com o Aves, mas candidata-se a um lugar no "Guinness", com mais um penalty falhado.

Julho

O Porto vence a SAD de Belém por 5-0, com um momento profético: Telles dá a vez a Fábio Vieira na marcação de um livre, e o miúdo marca mesmo! Na semana seguinte, outra lição importante vinda de um veterano: Marega tenta impedir o puto de marcar o penálti. Ainda assim, Fábio consegue vencer a oposição do avançado portista e do guarda-redes do Tondela, e fazer o 3-1. A meio do mês, o Porto vence o SCP, equipa recheada de jovens ainda "tenrinhos" por não partilharem o balneário com Moussa, e sagra-se campeão nacional.

E vivemos felizes para sempre. Ou até começarmos a preocupar-nos com a final da Taça de Portugal.

*Humorista

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