Opinião

A vergonha da vergonha

A vergonha da vergonha

ver•go•nha
substantivo feminino
1. Pudor; pejo. 2. Opróbrio. 3. Rubor das faces causado pelo pejo. 4. Timidez; embaraço; acanhamento. 5. Receio de desonra.

Começo com esta entrada do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa porque me vi forçada a consultá-lo, esta semana, depois de assistir à violenta repreensão de Ferro Rodrigues a André Ventura, por usar e abusar da palavra "vergonha". Fiquei a pensar que agora se usava esse substantivo como palavrão. Toda a conversa de Ferro Rodrigues faria sentido se, ao abrigo de um qualquer acordo ortográfico, tivesse passado a sinónimo de, suponhamos, "merda". Assim, ouvíamos o discurso de Ventura desta forma: "o projeto de linha de crédito só tem uma palavra: merda! É isto que caracteriza este Governo e o Partido Socialista". Ao que Ferro Rodrigues, indignado, retorquia: "O senhor deputado utiliza a palavra "merda" com demasiada facilidade, o que ofende muitas vezes todo o Parlamento, e ofende-o a si também". E todos os deputados aplaudiam. Menos o mal-educado do André Ventura, claro. E todos concordávamos com o puxão de orelhas do presidente da Assembleia. Todos menos o André Ventura, mais uma vez... Saindo desse universo paralelo e voltando à passada quinta-feira, em São Bento, fica mais difícil entender a postura de Ferro Rodrigues. O presidente da Assembleia castigou Ventura por ter dito "vergonha" em demasia, como se a "vergonha" estivesse para o Parlamento como o álcool está para os condutores: há um limite legal. Ventura apresentou uma taxa demasiado alta de vergonha (ou falta dela) no sangue, e foi apanhado na operação stop pelo agente Rodrigues. Com esta atitude, a segunda figura do Estado obriga pessoas que se consideram sensatas, como eu, a fazer uma coisa impensável: defender André Ventura. Isto sim, é uma vergonha (perdoe-me por usar esta expressão)! Exijo um pedido formal de desculpas. Acho que esta coisa de pôr o menino Ventura com umas orelhas de burro no canto da sala só abona a favor dele. O rebelde tem sempre a admiração dos colegas, e ainda mais quando é castigado pelos professores. Temos em Portugal milhões de "colegas" que poderão começar a achar que a voz de Ventura é de facto incómoda, e que estão a tentar silenciá-lo por dizer grandes verdades. A voz de Ventura é incómoda apenas na medida em que fala muito alto e diz sempre a mesma coisa. Como alguns brinquedos que o meu filho tem. Ficar muito indignado com ele e tentar, de alguma forma, cercear a sua liberdade, dá a ideia de que está a dizer coisas muito importantes. Relembro que Ventura, durante a campanha, revelou, com orgulho: "Eu digo em voz alta o que as pessoas dizem nos cafés!" . É, aliás, das poucas promessas que está a cumprir. Ora, duvido que Ferro Rodrigues se indigne desta maneira quando entra na Pastelaria Versailles e ouve um freguês ao balcão a debitar os mesmos clichés do líder do Chega. Dar a Ventura mais importância do que ao senhor que está a pedir um abatanado é má ideia. Ferro Rodrigues, sobranceiro, pensa estar a desprezar Ventura (como faz, de resto, com Joacine, a quem chama Joceline), mas na verdade está a destacá-lo. Fica a ideia de que há regras diferentes para Ventura, já que minutos mais tarde Mariana Mortágua usou a expressão "vergonha" sem ser advertida. Para Ferro Rodrigues a vergonha é como o sal: deve usar-se com moderação. Ventura pediu de novo para usar da palavra (não confundir com usar "a" palavra), para defesa da honra, e invocou a liberdade de expressão. Ferro Rodrigues respondeu: "Não há liberdade de expressão quando se ultrapassa a liberdade de expressão dos outros, que é aquilo que o senhor faz a maior parte das vezes que intervém". As primeiras cinco palavras são bastante reveladoras e preocupantes. Se calhar Ferro Rodrigues está a confundir o plenário com a CMTV, onde Ventura de facto atropela os colegas, aos gritos, a discutir os casos de arbitragem. Ferro Rodrigues, que é uma espécie de árbitro do Parlamento, entrou em campo com vontade de expulsar um jogador com quem embirra. Mas em vez de esperar que ele fizesse uma entrada a pés juntos, precipitou-se, e mostrou-lhe logo vermelho direto por palavras. E nem sequer foi daqueles casos em que o atleta injuria a mãe do árbitro!

Para os Caretos de Podence, que foram oficialmente reconhecidos como Património Imaterial da Humanidade. Conseguimos enganar bem a UNESCO, mais uma vez! Depois do fado, do cante alentejano, da falcoaria ou dos chocalhos, impingimos-lhe uns mascarados transmontanos. Agora só falta que os cabeçudos de Torres Vedras, o galo de Barcelos e as músicas do Conan Osiris também sejam classificados pela UNESCO. É o mínimo.

*HUMORISTA

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