Opinião

Arbitro, logo existo

A angústia do guarda-redes no momento do penálti já foi muito comentada. Era interessante agora que nos debruçássemos sobre a tomada de decisão dos árbitros. E não me refiro a dúvidas práticas como "foi bola na mão ou mão na bola?", quero recuar até ao momento da decisão original. A de ser árbitro. Porquê?

À partida é uma profissão que ninguém quer mas ainda antes de ser profissão já muitos queriam. Podemos concluir que temos juízes que não estão no seu perfeito juízo. Devíamos estudar estes indivíduos, tem de haver aqui um distúrbio psicológico. Não me levem a mal os árbitros, até porque isto deve ser das coisas mais leves que já lhes chamaram. Entram no lote de "gente com um parafuso a menos que vai para a frente de batalha, arriscando ficar com mais parafusos a menos". Como os repórteres de guerra. Mas no caso destes já estamos à espera que haja vontade de aparecer frente à câmara. "O Zé foi fazer reportagem para o Iraque e nem se deu por ele" seria uma crítica demolidora para um jornalista. Já "o Zé foi arbitrar o Paços de Ferreira-Boavista e nem se deu por ele" é um enorme elogio. O problema de muitos dos árbitros que atuam (e nunca este verbo fez tanto sentido) no nosso campeonato, é uma queda para o estrelato, que vem ao de cima a cada queda dos atletas. O árbitro não pode rebolar no chão que nem Neymar, não pode gritar como se tivesse levado com um pau (citando Jesus), não pode ter o papel principal em escaramuças, serve apenas para ser o desmancha-prazeres que acaba com elas... mas sente, no meio de tantas estrelas, uma vontade irreprimível de brilhar. Ainda que não seja um processo consciente, quer que saibam o seu nome. Mesmo que para tal seja preciso instaurar um processo disciplinar ao apanha-bolas ou ao maqueiro. A discussão sobre o trabalho dos árbitros vem sempre manchada de clubismo. Os encarnados, apesar de serem 6 milhões acham que todos os árbitros são doutro clube, os azuis contestam as contas que dão 6 milhões mas acreditam que todos os árbitros são sócios do SLB, e o Sporting, apesar de reclamar ter 3,5 milhões de adeptos, jura que nenhum deles é da APAF. Muito mais é o que nos une, a mania da perseguição, do que aquilo que nos separa, o momento em que somos prejudicados/beneficiados. Hoje não quero focar-me no que me enerva a mim (ou ao Luis Díaz), nem ao que enerva quem torce por outros clubes e fica com vontade de torcer (metaforicamente!) o pescoço ao árbitro. Quero escrever sobre o flagelo do pequeno poder. Já todos nos confrontámos com ele. Seja a rececionista antipática que se recusa a passar a chamada, seja o colega que muda de atitude quando é promovido, seja o polícia demasiado agressivo quando só precisa de ver o nosso selo do carro. No futebol, o árbitro é o embaixador do pequeno poder, embora possa ter grande responsabilidade no resultado. Nos jogos grandes o árbitro é um gajo normal, com o equipamento menos cool, a correr por entre jovens milionários. Como se isto não fosse humilhação suficiente, nem sequer o deixam tocar na bola. Como é que ele se vinga? Tratando toda a gente com altivez. O já retirado Pedro Proença distribuía "meu querido" como um central duro distribui pancada. Palavras que, quanto a mim, são mais ofensivas que um bom palavrão. Que é outra coisa que alguns árbitros não toleram. É tramada esta mistura: o árbitro adora mandar e os jogadores adoram mandar à merda. Outra coisa que os homens do apito não toleram: que se metam no trabalho deles, pese embora o trabalho deles seja meter-se no trabalho dos outros. Num dos últimos jogos, Soares Dias pediu ao guarda-redes que se limitasse a defender e o deixasse arbitrar. Uma espécie de "aqui quem manda sou eu", e é sempre mau sinal quando temos de ser nós a lembrar. Na Taça da Liga, Tiago Martins expulsou os treinadores de ambas as equipas "por palavras". Os árbitros têm muito medo das palavras. Todas. Não só durante mas também pós-jogo. Qualquer crítica merece castigo se vier da boca de um "mister", ou apenas censura (até conseguirem que dê coima/pena suspensa), se vier de um jornalista, comentador ou palhaço do Circo Chen. Os treinadores são criticados quando falam e quando ficam calados, já os árbitros estão em blackout há décadas. Não se lhes pode colocar questões nem escrutinar o trabalho. Pode haver crítica de cinema, o Leonel Vieira consegue aguentar que o seu filme mereça apenas uma estrela, mas é difícil que haja crítica à arbitragem sem que isso seja considerado um crime de lesa-futebol. Um jovem cineasta precisa de ter mais arcaboiço do que o Hugo Miguel. Uma obra da sétima arte pode ser arrasada mas o videoárbitro não, mesmo que a fotografia seja muito pior.

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