Opinião

Burguesia da telepatia

Burguesia da telepatia

Será chuva? Será gente? Será fadiga pandémica? Demorou mais de um ano. Foi preciso que se assinalasse o 1.º aniversário daquele vírus que não nos deixa festejar aniversários, para que eu começasse a ter alguma empatia com as pessoas que há meses se dizem fartas de estar em casa.

Atenção, e antes que comecem a ir buscar pedras: não me refiro aos que estão a sofrer na pele os efeitos da pandemia, pensava sim em quem está como eu: telescola, teletrabalho, televisão, telemóvel, Telepizza. A "burguesia do teletrabalho", assim batizada por Susana Peralta, com alguns problemas de entendimento à mistura. Fez-me lembrar as aulas de Filosofia, quando aprendemos a distinguir argumentos válidos e inválidos. "Todas as pessoas em teletrabalho são burguesas. Maria recebe o ordenado mínimo, tem 3 filhos, mora num T1 e está em teletrabalho. Logo, Maria é burguesa". Um argumento formalmente válido, já que a conclusão bate certo com as premissas, mas tão pouco verdadeiro como "Todos os espanhóis são toureiros, Bill Clinton é espanhol, logo Bill Clinton é toureiro" (encontrei este exercício online e achei tão gira a imagem de Clinton vestido de jaqueta que resolvi homenageá-la aqui). Penso que burguês do teletrabalho talvez não seja o melhor termo. Somos burgueses da telepatia, na medida em que estamos todos a pensar no mesmo: quando é que isto acaba? Sim, preferia a vida anterior, mas a verdade é que há um lado meu que é fã de confinamento, sempre. Nasci para ser bicho do mato, demorei 365 dias até sentir falta do "antigo normal". Pessoas com vidas muito mais estimulantes do que a minha ao fim de 15 dias já estavam a roer as unhas (ignorando as recomendações da DGS para não levar mãos à boca), a ansiar pelas saídas à sexta e almoços de domingo. Fui progressiva e assustadoramente descobrindo que vivia bem sem quase tudo. Tirando um dia em que passei mal porque o sinal do wi-fi estava só com dois tracinhos. Enquanto via gente a lamentar há quanto tempo não visitava os primos e a fazer chamadas de hora e meia para matar saudades, eu não tinha nada para matar. Até ponderei ir fazer um ecocardiograma para descobrir se tinha coração. Em março de 2021 posso, com certo alívio, assegurar que sim. A meio da semana o telefone tocou, era a minha mãe com uma boa notícia. Uma notícia que aparece todos os dias no telejornal mas que desta vez apareceu aqui. A minha avó foi chamada para ser vacinada. Fiquei feliz. Bate aqui dentro qualquer coisa. Gente não é certamente e a chuva não bate assim. Por isso há de ser o coração, dedução que talvez contrarie o método dedutivo ensinado em Filosofia. Aos 98 anos, e depois de esperar ordeiramente numa fila imaginária composta por filhos e enteados de autarcas, conseguiu! Comecei a gizar mentalmente uma possível festa dos 100 anos e percebi que afinal gosto de gente. E que nem desdenharia a hipótese de uma jantarada ou de uma ida ao cinema. Comprei bilhetes para um espetáculo (em agosto!), e comecei a pensar nas férias. Na mesma chamada a minha mãe contou-me que encontrara um trabalho meu de português, sobre o Sebastião da Gama. Isso lembrou-me aquele poema que eu adorava (como veem, um bicho do mato certificado, que lia poesia aos 13 anos), e que podia ser sobre esta espera infinda, pelo fim da pandemia.

Pelo sonho é que vamos,/Comovidos e mudos./Chegamos? Não chegamos? /Haja ou não frutos,/Pelo Sonho é que vamos.

Foi aí que percebi que não padeço de fadiga mas de nostalgia pandémica. Não tenho saudades do 2019 pré-covid, tenho é do 2001, pré-história de covid. Este intervalo para compromissos publicitários, antes de seguir a vida, deu para voltar a memórias destas, que só se recuperam quando há tédio suficiente para arrumar gavetas. Temos sempre mais saudades de quando éramos mais novos, porque nos parece, ao longe, que éramos mais felizes. Fui deitar o meu filho de 4 anos e ele perguntou "sonhas em mim?". Coitado, vai ter piores notas que a mãe a Português, porque deveria ter dito "sonhas comigo?". Ainda assim fiquei enternecida com a pergunta, quase tanto como a minha mãe ficou com um banal trabalho de escola que, diz ela, num claro exagero maternal, parecia do 11.0 ano e não do 7.0º (asseguro que não parecia!). Também eu exagero na avaliação do meu filho. Acho que ele não está errado, está só a ser poético. "Sonhas em mim" está certo porque eu sonho nele, e no irmão, que ainda vão viver esses tempos felizes que os adultos tentam recuperar. Ainda vão baldar-se à aula de Filosofia e fazer à pressa um trabalho de português que eu guardarei numa gaveta e que espero não descobrir numa futura pandemia.

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