Opinião

Carta aberta a Paulo Borges

Carta aberta a Paulo Borges

O Wuant a sentir-se ameaçado pela Renascença faz tanto sentido como o Mickey achar que o "Prós e Contras" lhe rouba público.

Caro Paulo,

Pensei escrever "Caro Wuant", mas estas cartas obrigam a uma certa formalidade. Sei que é provável que não leia esta missiva. Não estou a insinuar que os youtubers não leem, simplesmente apregoa aos quatro ventos o seu desprezo pelos meios de comunicação tradicionais, portanto imagino que nem saiba o que é o JN.

Talvez não esteja familiarizado com esta tradição da carta aberta mas equivale aos "reacts" no YouTube. Na sequência de uma investigação da Renascença, o Paulo viu os seus vídeos bloqueados pela plataforma, por publicitarem sites de apostas ilegais, sem licença para operar em Portugal. Acredito que tenha sido um duro revés.

Também foi duro para mim quando um primo emigrado na Sicília deixou de me dar malas cheias de notas, pedindo que não fizesse perguntas sobre a proveniência.

Reparei que o Paulo reagiu com mágoa: "Gostava de voltar aos tempos em que nada disto importava, sem nos preocupar com 1001 merdas para postar um vídeo". Uma dessas merdas é a lei portuguesa, as outras 1000 não sei ao certo.

Depois comparou os tais sites de apostas ilegais, sediados em Curaçao, aos Jogos Santa Casa, sediados ali no Rossio, por estes também serem mostrados às crianças, quando passam anúncios na TV... Duas coisas, Paulo (poderiam ser muitas mais, mas os jornais em papel têm limite de carateres): jogos como o Euromilhões são legais e regulados. Aqui para nós, deviam restringir o acesso a raspadinhas mas é aos maiores de 65, que as crianças não estão muito viradas para essa coisa analógica de raspar com uma moeda para ver se ganhamos outras. E há de reparar que essa publicidade não passa nos intervalos do Canal Panda.

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Sei que se recusa a ver televisão mas peça a alguém que lhe conte. Sinto que há alguma dificuldade da parte do Paulo em admitir que o seu público é constituído essencialmente por crianças. Diz que, de acordo com o YouTube, apenas 7% da sua audiência é menor de idade. Não sei se é assim tão ingénuo ou se nos imagina a nós mais ingénuos ainda.

O Paulo não acredita mesmo que haja muitos adultos a fazer likes em vídeos como "desafio dos 200 nuggets" ou "danças fortnite na vida real", pois não? E quando há uns anos fez um encontro com os seus fãs numa loja do Porto, não reparou que eram pequenos? Na altura até contou que "houve uma criança, de cinco ou seis anos, que foi engolida pela multidão e se perdeu da tia"... Acha que foi a tia a pedir ao miúdo para a levar, por ser fã dos seus vídeos de Minecraft? Repare, não é vergonha nenhuma trabalhar para crianças. Pelo contrário, acho que é das tarefas mais difíceis. A Floribella nunca se arrependeu de o ter feito. Não podemos é querer o melhor dos dois mundos: o público mais fiel (e fanático), daquele capaz de acampar à porta do Altice Arena pelos One Direction (se os pais deixarem), e publicidade para quem gosta de jogar póquer em caves escuras.

Mas o Paulo sente-se injustiçado e disse: "Fora de brincadeiras, o YouTube cá em Portugal está a sofrer pressão de Renascenças e outras empresas financiadas pelo Estado para nos boicotarem. Tudo porque lhes "roubamos audiência" a produzir conteúdo mais relevante do que quer que seja que eles passem.

"Sad times". Esta narrativa é repetida insistentemente: a rádio quer matar o YouTube! Estranhamente nunca quis matar a TV, mesmo quando se anunciava que ela vinha para exterminar o FM (FM é Frequency Modulation, não é "Football Manager").

Eu percebo que é mais fácil imaginar o Mundo assim, com vilões e heróis, avaliados através do número de subscritores nos seus canais. Mas acha mesmo que há ouvintes que abandonaram a Bola Branca para o ver? Ou miúdos que vão passar a ouvir o debate do estado da nação em vez de o verem a provar diferentes tipos de cheetos?

O Wuant sentir-se ameaçado pela Renascença faz tanto sentido como o Mickey achar que o "Prós e contras" lhe rouba público. Esta lamúria, revestida de teoria da conspiração, fez-me lembrar uma música muito conhecida (não sei quantas views tem no YouTube) do Rui Veloso (talvez não conheça, ele não é muito forte nas redes): "Parece que o Mundo inteiro se uniu para me tramar"...

Quem não sentiu isso na adolescência? É natural. Só não é natural ser adolescente aos 24 anos...

Um abraço de uma velha de 33,

Joana

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