Opinião

Depois logo se vê

"Tenho, como todos nós, o receio de que isto não acabe" entra diretamente para a coleção a que hoje dou início: "Frases que parecem ter sido ditas pela minha mãe mas na verdade foram proferidas por governantes". É certo que Marta Temido também é mãe, mas era bom que guardasse estes desabafos para as suas filhas (pensando bem, até para elas é capaz de ser demasiado angustiante).

A ministra da Saúde deu, esta semana, uma entrevista à "Visão", sobre a falta de visão do Governo, que parece não ter conseguido prever o que aí vinha em 2021... A respeito disso, Marta Temido lamentou mesmo o facto de não ter uma bola de cristal, coisa que nem a minha mãe diria porque, para grande alegria minha, não é esotérica. Mas se era disso que precisávamos para evitar uma terceira vaga de covid-19 equivalente ao tsunami do Pacífico, não se arranjava uma verba extra no Orçamento para se comprar a tal bola? Ou para, pelo menos, um médium? O professor Fofana tem provas dadas. Uma prima minha consultou-o e ele previu que ela ia perder todo o seu dinheiro. Acertou. Ao fim de 28 consultas já não lhe sobrava nenhum. O Ministério da Saúde precisa urgentemente de conselhos profissionais, para conseguir ajudar os profissionais de saúde. Têm de ir à bruxa, a ver se o (nosso) azar passa.

"Nós planear, planeámos. Planeámos foi para um limite que não era este com que estamos a ser confrontados", disse também Marta Temido. E eu, neste caso, compreendo. Até porque isto é um caso virgem. Não aconteceu há praticamente um ano em Itália, nem a certa altura no Brasil ou EUA. Como é que íamos adivinhar?! Ainda por cima sem a tal bola de cristal, nem um bom intérprete de borras de café... Não há condições para trabalhar. Talvez Temido tenha convocado Maya para uma reunião, para lhe lançar as cartas. Como não saiu a carta 13, a Morte, não conseguiu imaginar os números que teríamos em fevereiro. E agora, cá estamos, numa espécie de gigante carta 10, a Roda da Fortuna, entregues à nossa sorte... Esta história de planear para o limite errado faz lembrar aqueles adolescentes que vão de férias quinze dias para o Algarve, mas acabam por ficar mais uma semana: às tantas, acaba-se a roupa mas que se lixe. Repete-se a mesma t-shirt durante sete dias. O pior é que no SNS é mesmo preciso roupa lavada - e cama - e a manta é curta. Se puxarmos de um lado, destapamos do outro. E era só o que faltava aos pacientes com covid-19 ainda terem de passar frio.

E agora cito a ministra da Saúde a citar-nos a nós, cidadãos, ou melhor a citar os nossos hipotéticos pensamentos acerca do trabalho dela: "Dir-se-á: mas devia ter feito um plano A, B, C, D e E. Há um momento em que nós pensamos: isso não pode ser possível". Temido prova assim que é muito competitiva e que quer roubar a António Costa o título de mais irritantemente otimista do Governo (e quem sabe do país e do Mundo). "Em princípio isto chega" é o pensamento subjacente a isto e faz, mais uma vez, lembrar os adolescentes do 11.º C que vão passar as primeiras férias juntos para a praia da Rocha. Compram meia dúzia de pizas 4 estações congeladas e sete latas de atum e acham que, mais coisa menos coisa, têm refeições garantidas até ao fim das férias. O otimismo português é uma espécie de capa para a irresponsabilidade. "Ó stôra, eu só tive má nota no teste porque não estudei aquela parte. Achei que essa matéria não ia sair", diria o tal grupinho de adolescentes, já com a cabeça nas férias e a negativa a Geografia na pauta. Já a ministra da Saúde teve nega a História. Não estudou o suficiente o que aconteceu nesta, e noutras pandemias, no nosso e noutros países. Mas não está sozinha no grupo dos repetentes que acreditaram que não se repetiria tamanha onda, o ministro da Educação também chumbou. Bebendo do mesmo otimismo, pensou que já não fosse preciso voltar à telescola, e por isso não preparou nada. Acabou como a tal malta do 11.ºC, a tratar de tudo de véspera. Uns fazem cábulas, outros tentam comprar computadores à pressa. De Eduardo Cabrita nem falo. É aquele aluno malcomportado, que faz asneiras todo o tempo, mas que a professora adora e é incapaz de mandar para a rua. É uma turma difícil de domar, mas foi a que nos calhou na rifa. Fomos colocados neste país e agora temos de os aguentar! Parece que esta semana chegaram uns alunos novos, vindos da Alemanha, e estão a achar tudo muito estranho. Estão pouco familiarizados com a nossa língua, mas consta que ao fim do 1.º dia já sabiam dizer "depois logo se vê".

Humorista

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