Exclusivo

Elevar os padrõezinhos

Elevar os padrõezinhos

Aconteceu o pior dos cenários possíveis. Portugal pode apurar-se para a próxima fase do Euro com uma derrota por 2-0 frente a França. Se para alguns, temerosos, esta é uma conjuntura idílica, para mim, que ainda fiquei no hino do Euro 2004 em que os Da Weasel exigiam "muito mais", o ideal era um jogo a doer.

Mesmo sabendo que podia doer a sério no fim. Podíamos ficar todos, enquanto povo, com uma "rutura de ligamentos profunda", como aquele adepto benfiquista que certo dia ligou para o "Opinião pública" da SIC a expressar dessa forma a sua mágoa excruciante, quando Jesus foi para o Sporting. Como vê, caro benfiquista anónimo, tudo passa. E algumas coisas passam e voltam, nomeadamente bumerangues e o mister JJ. Por isso mesmo, eu preferia arriscar a tal lesão nos ligamentos do coração, logo à noite, com uma copiosa derrota num jogo em que tivéssemos de dar o tudo por tudo, para seguir em frente, do que esta jornada morna que vamos ter. Com a combinação de resultados digna de cubo de Rubik, podemos ganhar, empatar ou perder (desde que não seja por muitos), o que, convenhamos, rouba um pouco (quase tudo) de emoção ao desafio. Fernando Santos disse acreditar que, se houvesse um Portugal-Alemanha na final, outro galo cantaria. O de Barcelos, no caso. E eu também acredito que poderíamos vencer uma final. Qualquer final. Por isso apreciaria que daqui para a frente, fazendo jus ao chavão futebolístico, todos os jogos fossem uma final. A começar pelo de logo. Até porque já provámos que numa final conseguimos vencer os franceses (se houver prolongamento ou, neste caso, vá, uns 8 minutos de tempo extra). A nossa seleção parece ter um dos melhores lotes de jogadores dos últimos (largos) anos mas ainda não os vimos fazer uma exibição de encher o olho. Era bom que fosse hoje. Que aproveitássemos a diminuição da pressão para subir a fasquia, como rezava aquele sketch dos Gato Fedorento, série Lopes da Silva, "elevar os padrõezinhos". A nossa seleção parece o gajo com demasiadas características. Temos o melhor do Mundo, temos dois centrais de luxo, temos um treinador muitíssimo conservador... Não somos, ao contrário do protagonista do sketch, coxos, nem marrecos, nem manetas. Mas às vezes parecemos. Que seja hoje que os padrõezinhos vêm "cá p"ra cima".

Radialista e humorista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG