Opinião

Escrito no céu

Da história da aviação nacional fazem parte grandes vultos, desde Bartolomeu de Gusmão, inventor do aeróstato, até Óscar Monteiro Torres, que integrou a "esquadrilha das cegonhas" durante a Primeira Guerra Mundial, sem esquecer Sacadura Cabral e Gago Coutinho, protagonistas da primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Chegados a 2020, as notícias mais empolgantes relacionadas com o espaço aéreo nacional prendem-se com as rotas da TAP e com a rota que pequenos aeroplanos fazem, sobre a casa do "Big brother". Sim, é disso que quero falar hoje.

Bem sei que a humanidade se divide em duas fações: aqueles para quem "Big brother" remete para a obra de George Orwell, e os outros, para quem 1984 foi só mais um ano, e que em termos de autores estrangeiros preferem Joop van den Ende e John de Mol, criadores da Endemol, produtora que inventou o famoso reality show.

E sei que estou do lado errado desta história. Apesar de ter lido o livro, Winston nunca me entusiasmou como um Wilson, concorrente expulso da "Casa dos segredos 3" depois de ter dado uma cabeçada a Hélio. O programa da TVI é uma espécie de "romance distópico para totós". E também lá temos uma novilíngua. "Ir à chapa", "dar canal", "bates forte cá dentro", são tudo expressões que entraram no nosso léxico graças às cobaias que, ano após ano, se submetem a esta experiência.

A minha frase preferida continua a ser o enigmático "agora pensa", que fica bem a rematar qualquer afirmação. Dei por mim a seguir o conselho, e a pensar. A pensar na quantidade de aviões com recadinhos que sobrevoam a "casa mais vigiada do país". As famílias e fãs daqueles concorrentes estão a dar um fantástico exemplo, no que toca a ajudar a economia nacional a recuperar. Pelo menos no que toca à indústria das avionetas com banners.

Ainda sou do tempo (pré-BB1) em que só se viam esses recados aéreos quando se ia à praia no Algarve, e vinha do céu o aviso "Festa da espuma esta noite no Horta 2". Não esperava viver para assistir a isto: pessoas que fazem a sua comunicação toda com "post-its" gigantes rebocados por aviões. Esta nova edição do "Big brother" já bateu todos os recordes, no que toca a tráfego aéreo.

E os concorrentes, cá em baixo, reagem a todas as mensagens como a tribo do filme "Os deuses devem estar loucos", quando de uma avioneta é arremessada uma garrafa de Coca-Cola. No espaço de apenas um mês já pudemos ler poemas como "De bombeiro só a farda. Iury open your eyes", "Su, stop, guarda os teus beijos para mim, mãe" ou "Pedro não nos envergonhes com a Jessica".

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Parecem essencialmente recados de pais que não querem passar vexames à conta dos filhos. Não os censuro. Perante o risco de ver um filho a copular em direto na televisão, uma pessoa até começa a pensar que não devia ter copulado, ainda que na privacidade do lar, há vinte anos. Se o que gastaram durante essas décadas na educação dos miúdos não foi suficiente para evitar que se inscrevessem no "Big brother", não custa nada dar agora 300 euros extra para um lembrete aéreo.

No fundo, podiam ter-se juntado todos e enviado um só avião a dizer "porta-te bem, assinado: mãe e pai", que servia para todos e saía mais barato. Mas depois há mensagens mais enigmáticas, como: "Soraia, Portugal e Inglaterra veem tudo. Kamikaze falsos", "Grupeta, rua! Diogo e Daniel genuínos. Portugal vê", "Daniel e Iury, sigam o vosso coração sem medo, Suíça e Brasil", ou "Jessica e Pedro, cumplicidade verdadeira encanta PT, CH e BE".

Quem serão estas pessoas que se sentem no direito de se exprimir em nome de nações inteiras? Portugal vê? O Brasil quer que Daniel siga o seu coração? Não deviam estar mais ocupados a exigir que Bolsonaro seguisse o seu caminho? Pelo menos fiquei a saber que CH e BE são os códigos de Suíça e Bélgica, respetivamente. Já não se pode dizer que não se aprende nada nestes programas.

Os próprios concorrentes estão a aprender novos idiomas. Aconteceu há dias, quando esta advertência cruzou os céus da Ericeira: "Iury, apafapastapatepedepelepe". A concorrente de Oliveira do Bairro identificou logo o remetente: "Foi a minha mãe. Tenho a certeza. É com ela que eu falo na língua dos pês. Foi a forma que ela arranjou de me dizer que era ela a enviar a mensagem".

Era mais prático assinar, uma forma já muito antiga de identificar o autor, sobretudo se estes aviões forem pagos ao caráter. Dei por mim a pensar como seria o Mundo se só pudéssemos comunicar assim. Em vez da habitual SMS, a mulher enviava um avião ao marido "Quando fores ao Pingo Doce traz salsa". E outro de seguida: "Ah, esqueci-me: iogurtes também. Sem lactose!".

Nas grandes multinacionais, passavam-se tardes inteiras a responder a aviões. Tarefa especialmente difícil quando fosse preciso fazer "reply all". E esta crónica, em vez de estar impressa no JN, sobrevoava os céus de Portugal, dividida em 127 aviões.

*Humorista

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