Opinião

Estamos juntos

"Estamos juntos" é uma das frases da década. Essa e "OMG super cringe" (se não percebeu patavina desta expressão, consulte os seus filhos ou netos e, para a troca, pode explicar-lhes o que é "patavina").

"Estamos juntos" tem sido utilizado amiúde no diálogo entre artistas e as suas "famílias" de fãs, numa espécie de despedida oficial de post de Instagram, ou até como slogan de TV generalista. Soa bem e fica no ouvido "Estamos juntos", que é como quem diz, fique por aí que há mais uma novela a seguir. Tanto num caso como noutro, são afirmações falsas. Onde está o polígrafo quando precisamos dele? O artista musical mostra-se feliz por estar junto do público porque na verdade não está. Ele está sossegado em casa, eles estão alvoroçados na caixa de comentários e a comprar bilhetes para os seus espetáculos, na ilusão de que estarão efetivamente juntos, e na fantasia ainda maior de que isso seria bom. É um projeto que tem tudo para falhar, porque não há assim tanta afinidade entre os elementos dos DAMA e a Francisca que anda na escola preparatória, como não há entre a D. Adelaide e o Emanuel, apesar de ela, simpaticamente, responder a todas as publicações de Facebook do cantor com um "estamos juntos!" de volta. A magia da relação é precisamente não haver relação. Com a SIC, passa-se precisamente o mesmo. Apregoam em todos os intervalos que "estamos juntos", mas são uma "Sociedade Independente de Comunicação". Se os espectadores fossem seus dependentes, daqueles que têm de figurar no IRS, e que precisam de auxílio para cortar o bife, comer a sopa ou estudar geografia, o caso mudava de figura. Já não era "estamos juntos", seria "cada um por si, que eu não sou tua mãe, sou apenas uma estação televisiva". Justiça lhe seja feita, a SIC atualizou recentemente o seu slogan. Depois de anos a jurar "estamos juntos" e "crescemos juntos", passou a "mexe consigo", que não é um compromisso tão forte. Podia ser sobre um canal ou sobre uma aula de ginástica no Teams. Também a TVI, que agora diz que "está nas nossas vidas", o que pode ser sobre ela ou sobre covid-19, passou anos e anos a insistir no chavão "juntos criamos a sua televisão". Mais uma vez, falso, e ainda bem. Se hoje em dia já lá vemos programas que nos fazem questionar "quem é que teve esta ideia?", imaginem o resultado, caso os conteúdos fossem decididos numa assembleia com todos os telespectadores. "Estamos juntos" é bonito no papel mas um pesadelo fora dele. No fundo, é como o comunismo: resulta enquanto teoria, mas falha na aplicação prática. Graças a este 2020 prolongado que estamos a viver, o "estamos juntos" passou de uma promessa vã a triste realidade. Estamos juntos, todos, em casa. Cada um na sua. Junto dos "seus". Que por estes dias são "seus malcriados!", "seus desarrumados!", "seus mentirosos!". Numa fase em que só temos "autorização" para conviver com a família nuclear, desejamos secretamente que caia uma bomba nuclear na sala (mas que ninguém se magoe, é só para remover aquelas peças microscópicas de Playmobil que estão no chão, sem termos de passar uma hora de cócoras outra vez). A convivência prolongada com a família nuclear é, de facto, propensa a explosões, de quando em vez. E a ideia de passar Natal, Ano Novo, Dia de Reis, aniversário, Dia de São Valentim, Carnaval, Dia da Mãe, Dia do Pai e Páscoa só com o agregado dá vontade de gregar. Desculpem o calão, e também o exagero, é claro que a minha família não me dá vómitos, mas gostava que se chegassem um bocadinho para lá. Neste momento em que vos escrevo (sim, isto para mim é como se fosse um pedido de resgate que envio por carta a cada um dos leitores), tenho o pé do meu filho mais velho apoiado no meu ombro. Muito se fala do que sofrem as pessoas com o "distanciamento social", mas vejo pouco trabalho académico sobre o "aproximamento social" dos casais. Um pesadelo. Quando nos casamos, sabemos que é até que a morte nos separe, mas não contávamos com a adenda "e enquanto a pandemia nos juntar à força, fechados em casa". Ainda prometo amá-lo, mas... respeitá-lo? Quando está a falar altíssimo no Zoom? Não dá. De repente, desejo tratar-lhe da saúde, pressupondo que os votos "na saúde e na doença" possam incluir a possibilidade de eu ficar doente com ele! Não admira que uma das frases mais ouvidas em 2021, até ao momento, seja "já não estamos juntos". Compreendo que a ideia de "vai cada um para seu lado" seja mais apelativa do que nunca! Se no passado o sonho era "juntos para sempre", no "novo normal" a ideia é "separados durante o passeio higiénico" para um objetivo mais modesto: chegarmos juntos ao "antigo normal".

*Humorista

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