Opinião

Até que a compostagem nos separe

Até que a compostagem nos separe

Esta semana chegaram, dos EUA, notícias surpreendentes. E nem me refiro ao conflito de Donald Trump com a Huawei, que me faz lembrar a relação problemática que a minha avó tem com o seu telemóvel de teclas gigantes. Ela diz sempre que não teve culpa, embora eu saiba que só pode ter sido ela a errar quatro vezes o código PUK. A notícia que me chocou é mais analógica... artesanal, mesmo: Washington vai tornar-se no primeiro estado norte-americano a permitir a compostagem humana. Até aqui a morte era um assunto bem resolvido, havia duas hipóteses possíveis para o corpo: ou se enterra ou se crema, e nós vivíamos bem com isso. Ou morríamos, neste caso. Só tínhamos de saber se éramos mais adeptos de ir desta para melhor inteiros ou às peças. Aliás confesso que demorei um pouco a habituar-me à ideia de cremação: o acto de reduzir um ente querido a cinzas, como se ele em vida tivesse sido um SG Ventil, arrepia-me um bocado...

A verdade é que é preciso fazer alguma coisa ao cadáver (agora parecia estar a citar Rosa Grilo), e por isso é bom que haja gente que se debruce sobre o tema. Eu seria incapaz porque nem sequer consigo ir àquela salinha, nos funerais, em que repousa o caixão aberto com o indivíduo em eterno repouso. Lá está, também não me contento com esta solução de enfiar o parente numa caixa de madeira e soterrá-lo... parece-me falta de consideração na mesma. Sei que para quem está morto é indiferente. Nem valia a pena gastarmos dinheiro em jazigos familiares porque eles, à partida, não vão conversar...

De qualquer forma ficava mais descansada se as reputadas universidades americanas se ocupassem a descobrir formas de curar doenças e prolongar a vida, do que a decompor os corpos de quem não sobreviveu... Bem sei que à partida são estudantes de áreas distintas a fazer essas investigações: de um lado, a malta de biomedicina, do outro, gente do clube da natureza. Se os primeiros nos querem salvar, os segundos olham-nos com o ar guloso de quem pensa que daríamos óptimo adubo para as suas terras. Já os imagino a consolar viúvas em funerais: "deixe lá, minha senhora, não chore mais... O Adérito era muito bom homem mas como adubo ainda vai ser melhor!".

Confesso que já era preconceituosa em relação à compostagem ainda antes desta inovação. É um hobby como qualquer outro mas não me atrai: acumular em casa restos de comida e esperar que se decomponham, como quem alimenta um bichinho da seda, é demasiada areia para a minha camioneta. Ainda sou apreciadora da boa e velha camioneta do lixo que me leva os restos do jantar todas as noites... Chamem-me antiquada, e até coisas piores, que agora se dizem a quem não é 100% ecológico. Eu aguento. E garanto-vos que até tento ser amiga do ambiente mas tracei uma linha vermelha no que toca a comportamentos verdes: quando começa a cheirar mal acabou-se a ecologia. É muito bonito preservar o planeta mas se implicar não tomar banho durante vários dias, não contem comigo. É importante ficar atento a esta ténue linha que está na fronteira entre o ambientalismo e a falta de higiene. "Não há Planeta B!" gritam os jovens a plenos pulmões (ou com os pulmões possíveis, já que vivem em cidades poluídas). Ok, mas não queiram por isso que o Planeta A fique com um cheiro nauseabundo, só porque tem os dias contados. A compostagem humana é, no fundo, uma adaptação da mais recente mania da culinária. Querem transformar-nos a todos em carne maturada. Só que em vez de ficarmos mais valiosos, como um naco de black angus que esteve uns dias a "apodrecer", tornamo-nos numa espécie de estrume. Tantos anos a estudar para acabar assim... A fertilizar plantas. Isto é um pequeno passo (atrás) para o Homem mas um enorme salto para o PAN, que poderá assim conseguir a derradeira vitória: mesmo a malta que não liga ao clima, que desdenha os vegans e nega o aquecimento global, poderá acabar a adubar uma plantação de alfaces. Eu contentava-me com a velha ideia de ir "fazer tijolo" depois de morrer, mas claro que hoje em dia isso é mal visto. Em plena crise climática não podemos entregar a alma ao criador e convertermo-nos em material de construção, somos forçados a contribuir para a reflorestação.

20 valores

Para a organização do evento "Adoção na Passarela" (assim mesmo, sem "P" e sem noção). O Brasil aderiu ao Acordo Ortográfico mas alguns brasileiros adoptaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Prova disso é esta passagem de modelos com crianças que esperam por adopção. Assim os putativos pais podiam avaliar a beleza dos miúdos e levar o ideal, como quem escolhe um PC na Worten. Falamos de crianças que ainda não sofreram o suficiente, faz-lhes bem esta pequena humilhação para saberem o que a vida custa, e para perceberem que é importante ter as medidas certas para arranjar uns pais.

* HUMORISTA