O Jogo ao Vivo

Opinião

Marcelo teen

"Marcelo pede autorização para ir ao Vaticano no fim de semana da Implantação da República e das eleições legislativas. Mas regressa a tempo de votar". Este (longuíssimo) título do "Jornal Económico" chamou-me a atenção. E olhem que é raro o JE despertar algum tipo de sensação em mim, a não ser o desnorte total: "De que é que estão a falar? O que é o PSI 20?".

Aquela ideia do presidente da República, a mais alta figura do Estado, ter de pedir autorização para ir passar um fim de semana fora fez-me lembrar um adolescente a negociar as suas saídas com os pais. "Vou aos anos do Kiko mas prometo que amanhã acordo a horas de ir ao almoço da avó". Se calhar era evidente aos olhos de todos - é provável que sim - mas confesso que só nesse momento me apercebi: Marcelo Rebelo de Sousa é, efetivamente, um adolescente.

Uma espécie de "Estranho caso de Benjamin Button" que estagnou na puberdade. As provas estão à vista: deita-se às tantas da manhã (depois diz que esteve a ler), passa a vida na praia, quebra constantemente o protocolo, troca as voltas aos seguranças, é louco por selfies (ninguém me tira da ideia que é ele que pede aos cidadãos para tirarem fotografias na sua companhia)... Houve até aquele episódio em que o presidente fez o dab com um grupo de jovens à porta do Pingo Doce. Não há nada mais adolescente do que isto: não tanto o dab mas deambular à tarde pelo Pingo Doce, quando se devia estar numa aula de Físico-Química, ou num encontro com o chefe de Estado austríaco. Ainda na semana passada, tendo a hipótese de convidar qualquer artista para atuar nos jardins de sua casa, durante a Festa do Livro de Belém, quem é que escolheu? Os D.A.M.A! E até fez questão de subir ao palco no final, como verdadeiro fã... Já não preciso, portanto, de ir vasculhar os armários de Marcelo Rebelo de Sousa em busca de Clearasil ou do "Diário secreto de Adrian Mole", não é preciso reunir mais argumentos para provar que a idade real de Marcelo é, na melhor das hipóteses, 15 anos. Só isso explica, de resto, a energia inesgotável com que se apresenta constantemente. Aliás, e retomando o drama inicial, de Marcelo ter pedido autorização para ir passar um fim de semana fora com o seu amigo Tolentino Mendonça, rapidamente o presidente da República esclareceu que vai comemorar o 5 de Outubro em Portugal, votar para as legislativas em Celorico de Basto e assistir à investidura do cardeal Tolentino em Roma. Como se não soubéssemos já que Marcelo é capaz de estar em três sítios no mesmo dia. Até me parece um sábado pouco preenchido. Aposto que ainda consegue encaixar na agenda uma visita às zonas devastadas pelos incêndios, à câmara hiperbárica onde foi tratado Ângelo Rodrigues e à Academia de Alcochete para desejar boa sorte a Leonel Pontes. Aliás, o Papa Francisco dá-se bem com Marcelo por admirar figuras omnipresentes, de uma maneira geral. Marcelo Rebelo de Sousa é tão ativo que a frase "Ele está no meio de nós" também lhe podia servir. O presidente marca presença em tantos lugares diferentes que já começa a acontecer estar em sítios sem saber que lá está (e sem querer lá estar). Por exemplo, em flyers da campanha do PS em Coimbra. A campanha do candidato Pedro Coimbra resolveu usar uma fotografia do socialista ao lado de Marcelo (é o que dá o exagero de selfies), num folheto da campanha.

O gabinete da Presidência reagiu prontamente, proibindo a utilização da imagem de Marcelo por qualquer candidato. Corríamos o risco da moda pegar e todos os outdoors de campanha serem como as primeiras capas da "Revista Cristina": a grande estrela em destaque e, ao lado, um convidado. No fundo elegeríamos quem ficasse melhor ao lado de Marcelo. Uma espécie de "Adam looking for eve", aquele programa holandês (e perturbador) que passa na SIC Radical, em que uma mulher está numa ilha, e chegam dois candidatos para a tentar arrebatar. Todos em pelota. Neste caso, a ilha é Portugal, Marcelo já lá está (e para ficar) e vamos decidir nas legislativas quem lhe faz companhia. O desfecho é previsível: a jovem senhora (que somos nós, os eleitores nus) vai escolher António Costa. Resta saber se para casar, com maioria absoluta e comunhão de bens, ou só para mais uns tempos de namoro.

*Humorista