Opinião

Museu Fernanda Serrano

Museu Fernanda Serrano

"Olha, o minimercado mudou de toldo!", "alcatroaram a rua!", "o vizinho pintou a moradia de um azul que parece roxo, péssima ideia". Lembro, com saudade, o regresso de férias no tempo em que elas eram grandes.

Passávamos tanto tempo longe de casa (ou pelo menos parecia, mas nessa altura o escorrega do recreio também dava ideia de ser enorme, e agora percebemos que é um bibelot), que voltar ao nosso bairro era um misto de conforto e surpresa. Havia sempre pequenas novidades à espera de serem descobertas. Era como jogar àquele jogo das sete diferenças, mas com um grau de dificuldade superior (nunca percebi qual o público-alvo daquele passatempo mas suponho que sejam os leitores de 5 anos do Público). Ainda hoje o regresso no fim do verão continua a dar-me a sensação de que passei três anos em coma e não 15 dias no Carvoeiro. Se o meu espanto é grande com pequenas coisas, não consigo imaginar o que terão sentido os habitantes de Santa Comba Dão. Foram para a praia descansados e, quando voltam, estão a construir um Museu Salazar. Bom, "construir" talvez seja exagero. Ainda ninguém lançou a primeira pedra. Só se debateram ideias, que já há anos tinham sido debatidas. É uma espécie de "Revenge of the 90s" no debate político na zona de Viseu. A última discussão em torno do eventual museu aconteceu quando a Autarquia era liderada pelo PSD. Ressurge agora com um edil socialista, o que prova que, em certas matérias, os dois maiores partidos conseguem pôr-se de acordo. Matérias como "ditadores famosos". Leonel Gouveia, presidente da Câmara de Santa Comba Dão, diz que o objetivo é integrar este museu numa rota de figuras históricas. Podemos estar perante um novo tipo de turismo: uma espécie de Interrail que leva os viajantes a conhecer vida e obra de Franco, Mussolini ou Hitler. Sempre alojados em hotéis Sana, recomendados no Tripadvisor por Mário Machado. "O pequeno-almoço tem pouca variedade de pães mas em compensação aceitaram receber o nosso convívio da Nova Ordem Social". O hotel conta que a reserva foi feita sob o pretexto de irem debater o Espaço Schengen. Acho que esta desculpa devia passar a ser usada para tudo. "Querida, hoje vou chegar tarde. Estamos aqui no escritório a debater o Espaço Schengen". Aposto que os turistas vêm dessa tour ditatorial revigorados, a sentir-se melhor do que depois de visitar Bali. É que eu visito Bali e venho deprimida a pensar que lá têm uma vida muito mais relaxada do que a minha. Depois de uma rota pelos horrores das ditaduras europeias aposto que chegava a Portugal a adorar a minha vida, a usar hashtags tipo #gratidão e a planear as próximas férias em família: ditaduras africanas e, se sobrar tempo, um safari no Kruger Park.

"Museu de Salazar, não!" é o nome da petição online que se opõe à ideia. Devo dizer que petições online são a segunda coisa que mais abomino. A primeira é a ditadura. Os subscritores querem impedir a construção daquilo que temem que venha a ser um centro de romagem para os saudosistas do antigo regime. Uma coisa é certa: ficaria mais fácil apanhar um táxi em Santa Comba Dão. Estou a brincar, amigos taxistas, eu sei que nem todos adoram Salazar na mesma proporção em que odeiam motoristas da Uber. Mas é certo que celebrizaram a expressão "isto só lá vai com um Salazar em cada esquina". Enquanto não abrirem franchisings do museu, terão de se contentar com o de Santa Comba Dão. O presidente da Câmara nega que vá ser uma espécie de Kidzania para nacionalistas mas avisa que não vão diabolizar o estadista. O simples facto de lhe chamar estadista já nos deixa adivinhar que não lhe vão apontar defeitos. Adiantou também que o orçamento para requalificação do edifício é de 170 mil euros. É provavelmente o único momento em que dou por mim a desejar o regresso de Salazar, para pôr travão nessa despesa absurda. Os defensores do museu chamam-lhe "centro interpretativo" do Estado Novo. É uma ideia mais defensável, sobretudo se mudarem a localização. Que tal no Tarrafal? De resto, e chamem-me antiquada, prefiro visitar museus dedicados a gente mais simpática, ou com talentos mais interessantes. Proponho um Museu Fernanda Serrano. Ou um Centro Interpretativo Jorge Jesus, até porque nunca se percebe bem o que ele diz.

*Humorista