Opinião

Juízes com pés de barro

Juízes com pés de barro

Sempre ouvi dizer que, se temos um ídolo, o melhor é nunca o conhecermos pessoalmente, já que a desilusão será mais que certa. A vida mostrou-me que nem sempre assim é, mas falaremos do Batatinha noutra altura.

Esta semana, percebi que há outra classe profissional, além dos artistas, que é ainda mais arriscado conhecer de perto: os juízes. Se antigamente qualquer magistrado tinha ar sério, até o mítico Ricardo Velha, da comarca do "Juiz decide", impunha respeito. Não sei se eram os magistrados dessa altura que disfarçavam muito bem ou se enlouqueceram todos nas últimas décadas. Acho até que devíamos alterar a expressão para "de médico e de juiz todos temos um pouco". Estou a generalizar, claro, até porque os juízes que temos oportunidade de conhecer são os que aparecem na TV, nem sempre pelos melhores motivos. De um juiz esperamos rigor, seriedade, sobriedade... não esperamos vê-lo num direto de Facebook (bastava isto) a desafiar o diretor da PSP para um combate de MMA... como quem diz, "ah e tal, isto do Código Civil é muito giro, mas resolvíamos isto bem era à porrada". Há por aí muitos juízes com pés de barro, provavelmente não tínhamos reparado antes por causa das togas, que são compridas. Se fizermos uma breve viagem no tempo, recuando alguns anos apenas, percebemos que algo de errado puseram "alegadamente" (é assim que se faz, não é?) na água dos "alegadamente" juízes. Ah, não, juízes eles são mesmo. Embora não pareçam.

Em 2016, trazida para as luzes da ribalta por Bárbara Guimarães, que já lá estava, a juíza Joana Ferrer foi alvo de várias queixas, pela forma "preconceituosa" e "ignorante" com que se dirigiu à queixosa, tendo na altura duvidado que uma "mulher determinada" como a apresentadora aguentasse ser vítima de violência doméstica durante tanto tempo. Quantos casos idênticos existem, e vêm a público todos os dias? Provavelmente a juíza não se apercebeu disso porque ficámos a saber na altura: "Não tem automóvel. Não tem iPad. Não tem iPhone. Tem uma televisão, uma Grundig pequena e envelhecida que está avariada na sala de sua casa há cerca de 10 anos. E tem um rádio, sempre sintonizado na Antena 2". Soube-se ainda que tinha uma obsessão pela cultura alemã e que no seu Linkedin uma das poucas frases em português era: "Os Animais, ao contrário de muitos Humanos, não nos traem, nem nos desiludem". Estávamos portanto perante o tipo de pessoa quanto-mais-conheço-as-pessoas-mais-gosto-dos-animais. Problema: não preside a julgamentos na clínica "Patudos".

E, falando em bichos, também em 2016 houve um juiz que fez o seu autorretrato assim: "Sou um bocado bicho do mato, o tal saloio de Mação, um tipo que tem uns créditos hipotecários, tem de trabalhar para os pagar, não tem dinheiros em nome de amigos, não tem contas bancárias em nome de amigos, e portanto, até desse ponto de vista, não tem amigos". Chamava-se Carlos Alexandre, superjuiz para os amigos (se os tivesse), e nessa altura estava a julgar precisamente o caso de um "saloio" de Vilar de Maçada, que tinha uns dinheiros em nome de amigos e que chegou a ser primeiro-ministro de Portugal... A Declaração Universal dos Direitos do Homem prevê, no artigo 10, justiça imparcial para todos, e creio não haver nenhum asterisco a acrescentar "menos José Sócrates pois está-se mesmo a ver...". Carlos Alexandre parece ter esquecido a presunção de inocência e ter ficado só com presunção e água benta.

Em 2019, ficámos a conhecer a obra do juiz Neto de Moura, que estava injustamente na sombra, já que havia vários anos que produzia acórdãos muito originais, como aquele de 2010 em que considerou que "um murro no nariz e uma dentada na mão" de uma mulher, com uma criança de 9 dias ao colo, não eram violência doméstica. Felizmente, viu um dos seus trabalhos transformar-se em hit em 2017, quando citou a Bíblia para justificar a agressão de um ex-marido a uma mulher adúltera, com uma moca de pregos. Cada um destes juízes, e outros que tais, por razões diferentes, fazem-me temer (ainda mais) a possibilidade de ter de ir a tribunal. Não sei qual teria menos vontade de encontrar no Campus de Justiça. Quer dizer, na verdade sei, porque enquanto os restantes atacam com citações de Goethe, piadas de salão e passagens da Bíblia, o dr. Fonseca e Castro sabe fazer golpes de jiu jitsu. É outro patamar. Neste caso, é a subcave, porque já estamos abaixo do grau zero. E no piso -3 já temos o brasileiro Sérgio Moro a acenar-nos.

*Humorista

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