Opinião

Juízes de bancada

Esta semana, o homicida de Beatriz Lebre foi encontrado morto na sua cela, no estabelecimento prisional de Lisboa. Sei que esta não é a frase de abertura que se espera numa crónica que se quer ligeira.

Ninguém quer, certamente, relembrar a história desencantada do rapaz que assassina uma colega de turma, se livra do corpo, finge ajudar as autoridades, é preso e acaba por se suicidar. Mas não abandonem já este texto, que este relato sinistro serve - espantem-se - de mote para falar de uma coisa boa. De várias coisas boas, ditas pela mãe da Beatriz. Ao saber da morte de Rúben Couto, Paula Lebre endereçou as suas condolências à família. "Não é possível medir sofrimentos, mas uma morte é uma morte. Quando morre uma criança ou um jovem, é sempre uma perda, para as famílias como para a sociedade. É perda de património humano. O valor da vida deve sempre ser o supremo de uma sociedade que se diz de direito e de humanos", escreveu no seu Facebook, no mesmo texto em que lembrou que sempre foi, e continua a ser, contra a pena de morte. Um pequeno passo para a mãe de Beatriz, um grande passo atrás para todos os imbecis que pululam no Facebook, e enchem caixas de comentários exigindo justiça popular, torturas e mortes sangrentas, quando confrontados com uma notícia de crime. É que a primeira arma de arremesso destas pessoas, que são tão veementemente, e bem, contra quem usa armas, é a afirmação "havia de acontecer a um filho seu!". E neste caso aconteceu mesmo à filha daquela mulher. E ela não alterou em nada os seus princípios, mesmo perante tão triste fim. O que não só deita por terra a retórica de quem deseja que se corte o pescoço a quem matou ou a mão a quem roubou (há uma lista de países onde talvez gostassem de viver, posso providenciar), como descansa almas mais pacíficas como a minha. Se é certo que nunca me passaria pela cabeça fazer justiça pelas próprias mãos (aliás, evito tudo o que tenha de ser executado pelas minhas mãos, não confio nelas nem para fazer rissóis, quanto mais para castigar um criminoso), perante estas notícias hediondas pairava sempre uma dúvida. A dúvida que deu nome a um programa da Conceição Lino ("E se fosse consigo?"). Comigo, neste caso. Se tivessem feito mal a alguém que me fosse muito próximo, conseguiria manter a distância e a frieza, e continuar a achar exatamente o mesmo que até então? Ou sairia à rua, tipo ranger do Texas, pronta a honrar a vítima, desonrando-me a mim? É que normalmente é isso que acontece, e acredito que as pessoas não notem que estão a incorrer nessa incoerência. Desejam tanto mal àquela pessoa que fez uma coisa tão errada, que estão dispostas a fazer o mesmo. É o tal olho por olho, dente por dente, que nos deixaria a todos cegos e desdentados (pelo menos, não víamos o estado das nossas bocas) em menos de um fósforo. Pagar na mesma moeda, nestes casos, é má ideia. Estaremos a fazer o pagamento numa moeda que vale muito pouco. Uma moeda que já devia estar fora de circulação e ser apenas para colecionadores de histórias horrendas. Amor com amor se paga? Talvez, deixo ao critério de cada um. Crime com crime se paga? Péssima ideia. Não só porque corremos o risco de acabar como companheiros de cela do infrator que queríamos punir (e deve ficar um ambiente de cortar à faca, em sentido literal), mas porque ficamos automaticamente equiparados a eles. Talvez com uma desculpa melhor para o delito, mas em tudo o resto iguais. Claro que, felizmente, a maioria dos justiceiros das redes sociais se ficam por aí. Depois desligam o computador e vão à sua vida, ver a "Nazaré" na SIC. Mas o simples facto de perderem cinco minutos a desejar que alguém morra (que não o vilão da "Nazaré") devia fazê-las pensar. Sei que é pedir demais, mas sou uma sonhadora. As histórias de crimes monstruosos também me chocam. Também acordam o voyeur que há em mim, e fazem-me ler todas as notícias e notas de rodapé, sem que eu entenda muito bem esta atração pela barbárie. Mas a segunda coisa que mais me choca, a seguir ao próprio crime, é a reação dos populares. Não só os que vão para a porta dos tribunais insultar os réus, como os que preferem gritar ameaças no Facebook, e descrever com perturbador grau de pormenor as sevícias que os culpados deviam sofrer na cadeia. Não era melhor empregarem essa imaginação toda a escrever um policial? Além do mais, desejar a morte de alguém é desperdício. É como se nos aparecesse o génio da lâmpada e o nosso primeiro desejo fosse conhecer o génio da lâmpada. Já está. É que todos vamos morrer, mais tarde, mais cedo, não sabemos quando. Eu prefiro desejar que as pessoas aprendam com os seus erros. No caso de muitos criminosos, acho que não há salvação possível, no dos juízes de bancada, gostava muito que houvesse, que ainda fôssemos a tempo de os reinserir na sociedade.

*Humorista

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