O Jogo ao Vivo

Opinião

Manife pelo civismo

Acompanhei com a máxima atenção, e o maior distanciamento possível, a "Manifestação pela liberdade" através da televisão, e sobretudo na Internet (PORQUE, JÁ SE SABE, OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO CORRUPTOS ESTÃO COMPRADOS PELO ESTADO PARA NOS FAZEREM ACREDITAR QUE EXISTE UMA PANDEMIA, MALDITO TELELIXO). Desculpem, o meu computador foi atacado por um vírus negacionista, que escreve sempre em caps lock.

Contava eu que, enquanto via aquelas pessoas a descer a Avenida da Liberdade, clamando por liberdade, tentava perceber por que raio leva duas mil pessoas (MAIS! MUITAS MAIS! ÉRAMOS PARA CIMA DE QUATRO MIL! A DESFILAR TODOS MUITO JUNTINHOS, EMBORA VOS CHAMEMOS REBANHO A VOCÊS, OVELHAS QUE ACREDITAM NO QUE VOS DIZEM OS MÉDICOS E SEGUEM RECOMENDAÇÕES DA DGS!), o que é que levará uma multidão a juntar-se para reclamar por uma coisa que já tem? Aproveitar a liberdade que têm para estar na rua a sentir o vento na cara, para gritarem aos sete ventos que não têm liberdade é como ir para a Portugália exigir uma ementa com mais bifes. Perguntar onde anda a Constituição, esquecendo que é lá que está consagrado o direito de manifestação? Se, à primeira vista, me pareceu chocante ver aquela mole humana a fazer tudo o que nos é pedido há 12 meses que não façamos, perante a passividade dos agentes da PSP, depois percebi que aquela era de facto a melhor forma de desmascarar os sem máscara. Perante malta que propaga (além de coronavírus) uma teoria da conspiração que diz que os governos opressores de todo o Mundo (estranhamente orquestrados) nos querem controlar, inserindo chips nos nossos braços quando formos levar a vacina, enquanto nos subtraem gradualmente todos os direitos, nada melhor do que deixá-los falar à vontade. Intervenção policial a exigir que dispersassem (como se nos discursos não dispersassem já quanto baste) seria mais um trunfo, mais uma prova cabal de como são uma voz inconveniente que urge silenciar, para juntar a um documentário de origem duvidosa partilhado no Facebook.

Lá estiveram eles, a discursar à vontade, durante uma tarde inteira, no centro de Lisboa... E quem diz discursar diz cantar, dançar, recitar poemas, receitar medicamentos homeopáticos, cozinhar tofu num grelhador portátil, fazer reiki, alinhar os chakras, dar à luz na fonte do Rossio, com o apoio de uma doula, leiloar perdidos e achados do Festival Boom, cuspir fogo (afinal não era preciso ter levado o barbecue), tocar flauta de pan, lançar búzios... Foram menos incomodados do que o cidadão que, também esta semana, foi apanhado em flagrante, a comer gomas na via pública. Nós, que observamos tudo isto, também questionamos as decisões que são tomadas. Vacinar professores, faz sentido? AstraZeneca é segura? Vendas ao postigo porquê? Público no estádio? Restaurantes só em abril? Sim, também estamos fartos. Também adorávamos que isto acabasse amanhã. Mais, que nem tivesse começado e que não passasse tudo de um sonho, um pesadelo plantado nas nossas cabeças pelo Bill Gates, através de avançada tecnologia 5G. No fundo estas pessoas seguem o caminho mais fácil. Numa era em que se fala tanto - demais - em sair da zona de conforto, esta malta está em contraciclo, e foi enfiar-se no sítio mais confortável do Mundo: um buraco de areia quentinha, onde enfiaram a cabeça. Não é por acaso que, quando temos um problema grave, os nossos amigos muitas vezes nos abanam e lembram "estás em negação". Ou porque achamos que o casamento não acabou de verdade e ainda vamos reatar, ou porque juramos que não estamos viciados e conseguimos parar, quando quisermos, de consumir álcool, drogas ou aquelas gomas ácidas que são tão boas mas já nos valeram problemas com a Polícia. Os negacionistas ficaram encarcerados nesta fase, para sempre, e recusam ajuda. Vivem num mundo cor-de-rosa, em que até têm o direito especial de fazer uma espécie de festival de verão antes do tempo, e mesmo assim queixam-se. Em casa estão as pessoas cujos negócios faliram, pais e mães no desemprego, milhares em lay- off, miúdos que não têm escola a sério há um ano. À espera. Todos. Uns mais pacientes que outros. É como se estivéssemos enfiados numa gigantesca loja do cidadão, à espera de vez... Ainda vai demorar e não temos lugar sentado, mas não desistimos. Nisto, entram os manifestantes pela repartição adentro, tocando os seus djembés e fumando cachimbos da paz, passam-nos à frente na fila e ainda reclamam se ousarmos interpelá-los. Ainda por cima íamos ser simpáticos, e convidá-los para se juntarem no próximo sábado ao nosso protesto: manifestação pelo civismo.

Humorista

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