Opinião

Não há pavor como o primeiro

Não há pavor como o primeiro

"Não há amor como o primeiro" é uma frase desmentida todos os dias, um pouco por todo o Mundo, sempre que nasce um segundo filho (ou terceiro ou décimo, dependendo da latitude).

Nem que fosse por isso já valia a pena aumentar a natalidade, só para contrariar os clichés. A poucos dias (ou horas) do nascimento do meu segundo filho, confesso o meu desconhecimento: não faço ideia do que é ter dois filhos. Há quem diga que é "só" o dobro do trabalho mas isso é como dizer que fazer malabarismo com duas bolas ou só com uma tem o mesmo grau de dificuldade. Sim, acabei de comparar crianças a malabares. Não é assim tão descabido: o maior objetivo de um pai ou de uma mãe nos primeiros meses também é não os deixar cair ao chão. "Não voltes ao lugar onde foste feliz", outra frase feita à espera de ser destruída.

Lá voltamos nós à maternidade, prontos para descobrir o que o futuro nos reserva. Será grande? Pequeno? Cabeludo? Chorará em fá ou sol? Terá o nariz do pai ou da mãe? Ou traz um modelo novo? Olhos à chinês como o irmão? Pode dizer-se "olhos à chinês" ou é insultuoso? Se ele tiver olhos à chinês é considerado apropriação cultural? Tantas dúvidas, meu Deus. No fundo, passamos nove meses à espera de um desconhecido. Depois de uma vida inteira a ouvirmos da boca dos nossos pais, para quem fomos um dia o desconhecido, que não devemos falar com estranhos, eis que nos colocam nesta difícil posição: com um estranho ao colo, tendo não só de lhe falar, mas também de o alimentar e garantir que sobrevive. Isto é como levar a palco "À espera de Godot", com a vantagem de que este aparece mesmo e, à partida, não se chama Godot, a não ser que alguma tia mais histérica lhe dê essa alcunha enquanto lhe aperta as bochechas.

O nascimento de uma criança é um autêntico blind date, com uma particularidade: corra bem ou mal teremos de o levar para casa. Lembro-me do primeiro encontro com o meu primeiro filho: foi no recobro (parece o nome de um bar), fitámo-nos longamente, ele parecia curioso, intrigado, expectante. Ou então era só fome. Eu não sei o que parecia aos olhos dele (parecia com certeza neblina, que eles nessa fase só veem vultos). Tentei fazer um ar competente, como quem vai a uma entrevista de emprego. Mesmo sabendo que ele já me tinha escolhido para mãe, por não ter recebido mais nenhuma candidatura.

Não sei o que dirão os meus olhos quando olhar para este novo colaborador da nossa empresa familiar. Não sei sequer o que diria se Daniel Oliveira me colocasse essa questão no Alta Definição, quanto mais perante uma criatura acabada de chegar ao Mundo, com a expectativa de que eu saiba responder-lhe a tudo. Talvez aproveite o pouco tempo que resta para treinar olhares ao espelho. Um ar confiante, para que ele não repare que a apreensão é tanta como quando conheci o irmão. É a mesma quantidade de preocupação, mas doutra qualidade. Desta vez não temo que me escorregue das mãos no banho, nem acho que lhe vá dar leite a mais, ao ponto de lhe sair pelo nariz (sim, aconteceu), mas mesmo que aconteça sei que o nosso pânico não vai ser o mesmo. Não há pavor como o primeiro, essa é que devia ser a frase feita. Já não vai ser aquele susto de quem sente que acabou de avariar um boneco que lhe emprestaram. Sim, que um filho acaba por ser um empréstimo de longa duração. Um leasing. Temos de o estimar mas não é nossa propriedade. O segundo filho não é tanto um boneco, é mais uma peça de Lego, que vamos ver como se encaixa na construção que deixámos a meio. É como o aluno novo na escola. Queremos ajudá-lo a enturmar-se o mais rápido possível (a não ser que sejamos um dux de Coimbra, nesse caso queremos praxá-lo, sujando-o ainda mais do que ele já faz sozinho).

Se o primeiro filho faz de nós adultos, o segundo faz de nós árbitros. Obriga-nos a ser imparciais, a não ter favoritos, a manter a ordem. Nesta fase já não basta sermos responsáveis e não nos esquecermos deles à porta da escola. Agora é preciso sermos justos. Ou seja, se nos esquecermos de um, temos de deixar lá o outro também, não vá dar-se o caso de sentirem que há um preferido.

Seja qual for o nosso desempenho já sabemos que é provável que nos insultem no fim, como acontece a qualquer árbitro. Verão cartão vermelho e cumprirão um jogo de castigo. Jogo esse que acabará a ser arrumado por nós, para não ficar espalhado no chão da sala. Sim, saímos sempre a perder. Ter um segundo filho é uma decisão pouco racional porque os adultos perdem a superioridade numérica em casa... A partir de agora, ficamos dois para dois. Nós ainda temos o poder, é certo, mas eles, em contrapartida, têm aqueles olhinhos suplicantes que conseguem tudo o que querem. Não há ditador que resista.

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Humorista

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