Opinião

No meio está a virtude, sozinha

No meio está a virtude, sozinha

"Acabei de ver imagens de manifestações na cidade de Lisboa. O controlo da doença depende do comportamento das pessoas. Seja em festas ou ajuntamentos no exterior, não nos podemos juntar, mesmo com máscaras", afirmou, no passado fim de semana, a perigosa Graça Freitas, que acumula as funções de líder de uma célula do Ku Klux Klan com o comando da Direção-Geral de Saúde.

Pensava eu que isto era uma preocupação natural de quem tem apelado ao bom senso, sobretudo em zonas do país em que a epidemia está até mais ativa do que nunca. Rapidamente descobri que não. Mais, descobri, ao fim de 34 anos de vida, que sou racista. Nunca tinha dado por nenhum sintoma mas, infelizmente, consultando o Dr. Google (um erro para uma hipocondríaca, bem sei) o diagnóstico foi inequívoco: todos os pacientes que questionaram se para ser antirracista é preciso ser pró-covid são racistas. Se não sou antirracista daquela forma específica (naquele sítio e hora, com um cartaz a dizer #blacklivesmatter), não há mais nenhuma hipótese. Neste caso tudo é, de facto, preto ou branco. Ou estás connosco ou estás contra nós, um raciocínio perigoso, que já devíamos ter abandonado, ao mesmo tempo que abandonámos a ideia de que este ou aquele tom de pele é superior ao outro. E aqui o "estar connosco" tinha de ser literal. Tínhamos de estar na rua, ignorando os conselhos dos especialistas em saúde pública sobre proximidade e as "ordens" do Governo sobre ajuntamentos durante o estado de calamidade. "Ordens" está propositadamente entre aspas porque pelos vistos o próprio Governo acha que não são para cumprir. Temos de concordar com a forma para podermos subscrever o conteúdo. Só assim recebemos o diploma de antirracista. Caso contrário, chumbamos e ficamos com bacharelato em fascismo. De repente, a única forma de ser antirracista era estar ali, trocando gotículas eventualmente infetadas, para mostrar que, nos cuidados intensivos, somos mesmo todos iguais (até porque temos de usar aquelas batas hospitalares). De repente, a luta racista cinge-se a manifestações na rua. Eu, que nunca fui a manifestação nenhuma, descubro assim com surpresa que sou racista, homofóbica, contra os precários, a favor do aquecimento global... Todas as outras coisas que fazem de nós não racistas, como por exemplo ensinar os nossos filhos a não o serem também, valem zero.

Espanta-me sempre que as mesmas pessoas que apelam (e bem) ao respeito e à tolerância sejam absolutamente intolerantes com quem discorda delas nem que seja numa vírgula. Dizer que todos os que questionam uma manifestação feita naqueles moldes são racistas - e provavelmente militantes do Chega - é igual a dizer que todos os ciganos vivem de subsídios, ou são ladrões, ou andam de burro (escolham a generalização abusiva e absurda que mais vos aprouver). Um "mas" aplicado à data e local da manifestação é de repente transformado no "mas" utilizado pelos racistas, que afirmam coisas como "eu não sou racista mas os pretos/os ciganos/os chineses são todos uns............. (preencher à vontade do freguês). O problema disto é que quando se começa a acusar toda a gente de racismo começam a faltar adjetivos (daqueles mesmo insultuosos) para os verdadeiros racistas.

Nem sequer acho que faça sentido embarcar em comparações, como aquela pergunta que vi muitas vezes repetida "porque é que quando foi o ucraniano espancado no aeroporto não se manifestaram?". Isso faz-me lembrar aquelas pessoas que contestam quem ajuda crianças no Laos quando "há tantas aqui a precisar". Ou aquele subterfúgio usado por quem não quer discutir certos temas no Parlamento porque "há questões mais importantes para o país", como se o facto de estarmos a debater a adoção de crianças por casais do mesmo sexo nos obrigasse a interromper o debate sobre macroeconomia... Não é por aí que vou. Muito menos pelo caminho de Rui Rio, que acha que "ainda ficamos racistas com tanta manifestação contra o racismo". Isso é como achar que ficaríamos racistas por ver o "Little Britain", entretanto retirado da Netflix por causa do recurso a blackface em alguns sketches (embora também possa ofender o recurso a perucas loiras e a cadeiras de rodas noutros). Gostava de acreditar que no meio está a virtude, mas neste momento sinto que no meio estão só as pessoas que sobraram... e não foram para um extremo nem para outro. Fazer tudo o que está ao nosso alcance (e que infelizmente parece sempre pouco) para acabar com o racismo? Sim! Fazer tudo o que está ao nosso alcance (e que é mesmo pouco, a não ser que tenhamos um PhD em biomedicina) para acabar com a pandemia? Sim! Desculpem lá se acho que podem ser conciliáveis. É o meu lado utópico.

Humorista

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