Opinião

Novak DjoCovid

Não sei se concordo com aquela frase-ideia de que "a realidade supera sempre a ficção".

É certo que supera muitas vezes, mas nestas coisas dos derbies verdadeiro/inventado há sempre o fator surpresa, e pode acontecer, uma vez de 100 em 100 anos, a ficção, armada em Santa Clara a marcar quatro golos na Luz, vencer a realidade. Esta semana, no entanto, não houve surpresas: a realidade voltou a impor-se à nossa imaginação. O tenista Novak Djokovic tem sido duramente criticado por causa das festas que organizou durante o seu torneio Adria Tour, e que originou um surto de covid assinalável, ainda que mais pequeno que o da festa de aniversário em Lagos. Vieram a público vídeos dessa festa (a dos tenistas, não a de Odiáxere, infelizmente, que eu também gostava de ver) e qual não é o meu espanto quando constato que os atletas dançaram o limbo, animadíssimos, ao som da seguinte música: "a little party never killed nobody"... Que ironia tão boa, e tão exagerada se aparecesse numa série ou novela. Lá estavam eles, e as mulheres, cantando e rindo (não são mocidade portuguesa, são mocidade da Sérvia), com aquela alegria de quem está absolutamente despreocupado (ainda se lembram desse sentimento, que tivemos pela última vez em março?). No fundo, aquele grupo (grande) de amigos acreditava mesmo que estava numa "little party" e, segundo os parâmetros de antigamente (março, lá está), até estavam certos. Hoje, uma pequena festa é composta por três pessoas. E um festão por dez. Mas se isto serviu para alguma coisa - além de lição para organizadores de futuros torneios desportivos que servem, na verdade, como pretexto, para uma boa ramboia noturna - foi para que eu conhecesse melhor Novak Djokovic (entretanto apelidado nas redes sociais de DjoCovid), atual n.o 1 do ranking ATP. Confesso que, apesar de gostar de ténis, não sou grande conhecedora. Nunca consegui atinar bem com as pontuações: porquê 15, 30, 40? Nesse aspeto, o futebol é muito mais simples (simplório, até), as únicas contas que temos de fazer são: os centímetros do fora de jogo segundo o VAR, e o tempo de compensação que o árbitro vai dar, e que nos parece sempre ou manifestamente insuficiente ou absolutamente escandaloso (dependendo do resultado e da equipa em causa). Aliás, foi precisamente através do futebol que conheci o tenista de quem se fala. Porque Djokovic apareceu, certo dia, num Estoril Open envergando uma camisola do Benfica. Ainda assim, este mau gosto a vestir não me pareceu suficiente para embirrar com o homem. Temos de saber respeitar as diferenças. A não ser que a diferença consista em ser anti ou pró-vacinação. E descubro agora que Djokovic é contra! Que é uma frase que nem me faz sentido escrever: ser contra as vacinas é mais ou menos como ser contra a respiração. Portanto, aquela festa ganha agora um novo sentido. Se calhar, não foi uma irresponsabilidade, foi um estratagema para garantir imunidade de grupo, que é a única forma que Novak tem de combater a covid. E está a resultar, porque já está infetado. Ele, a mulher e mais uma data de participantes do torneio. A quarentena serviu para nos conhecermos melhor. E não, não falo em autoconhecimento. Quem é que tem tempo para isso com teletrabalho, telescola, tele-fona-aos-teus-pais-para-virem-buscar-os-miúdos-que-eu-já-não-os-aguento? Serviu para conhecermos melhor algumas pessoas, que até aqui só víamos no desempenho das suas funções, e passámos a ver em constantes lives na net, dizendo o que lhe vais na alma. E o que vai na alma de Djokovic? Dito por ele: "pessoalmente, sou contra a vacinação e não quero ser forçado por ninguém a tomar uma vacina para poder viajar". Boas notícias para Nadal, Federer e companhia, que provavelmente subirão no ranking, perante esta ausência anunciada de Djokovic dos torneios internacionais. Noutra interessante conversa, desta feita com o seu guru, o tenista sérvio falou da capacidade do ser humano fortalecer o sistema imunológico com pensamentos positivos. Foi o que fez, no fundo, na tal festa. Levou demasiado a sério aquele slogan da pandemia, o "vai correr tudo bem", e acreditou que isso era suficiente para o vírus não penetrar no seu organismo. Djokovic acrescentou ainda que conhece gente que, através do poder da gratidão, conseguiu transformar água poluída em curativa, porque "a água reage". Mais, disse que cientistas provaram em experiências laboratoriais que as moléculas na água reagem às nossas emoções e palavras. E isto é verdade. Não sou cientista (aqueles que Novak consultou também não), mas fiz aqui um pequeno teste em casa: despejei moléculas de covid num copo de água, li-lhes estas declarações do tenista e elas fartaram-se de rir.

*Humorista

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