Opinião

O Dia E

A expectativa era enorme, já ouvia falar daquele dia há muito tempo. Há demasiado tempo. À medida que a data se aproximava, o entusiasmo ia crescendo. Era mais do que nervoso miudinho, era uma ansiedade já maior e vacinada, que aumentava a cada minuto que passava, com aquela lentidão com que os minutos insistem em (não) passar quando estamos com pressa, estilo septuagenária na passagem de peões quando já vamos atrasadíssimos para a reunião mais importante das nossas vidas.

Nos dias que antecederam o grande acontecimento tudo parecia pequeno e insignificante. Não era para menos, tinha ouvido os meus pais e avós falarem disso tantas vezes... Estava quase a chegar a minha vez, para depois poder também falar dela na primeira pessoa, vezes sem conta, aos meus filhos, netos e bisnetos (confiando na longevidade). Havia também aquela amiga que, sempre à frente do seu tempo, e emigrada num destino longínquo, já tinha passado pela experiência. O meu futuro era o seu passado, e ela garantia-me que eu ia adorar. O que, em condições normais, me deixaria reticente. Toda a gente dizia que eu ia "amar" (normalmente quem é tão enfático a fazer recomendações usa o verbo amar) o "White Lines", na Netflix, e desisti antes de acabar o primeiro episódio... Mas desta vez era diferente. Desta vez havia tanta gente a jurar a pés juntos que seria maravilhoso que eu via-me obrigada a acreditar. Eu, que acho sempre que não vou em cantigas, estava ansiosa por participar naquele coro de indignação positiva, que é a indignação que sentimos por termos desperdiçado muito tempo de vida sem viver aquilo. "Como é que aguentei tantos dias sem isto? O que fiz da minha vida até aqui? Como vou recuperar o tempo perdido?". E o dia estava aí à porta. Na véspera mal consegui pregar olho, foi como reviver os tempos da 3.a classe, em que ficava entusiasmada por ter uma visita de estudo no dia seguinte, e acordava os meus pais às cinco da manhã a perguntar se já tinham tratado da lancheira que tinha de levar para a escola, para fazermos um piquenique depois de visitarmos a Base Naval do Alfeite. Mesmo depois de contar todo o tipo de carneiros e outro gado vacum, sem conseguir adormecer, levantei-me da cama antes das sete da manhã, com a mesma energia de quem dormiu dez horas e meia num daqueles colchões Hastens que custam para cima de um balúrdio, e vesti a minha melhor roupa. Senti que a ocasião merecia que me esmerasse. Saí de casa, estuguei o passo, enquanto pensava por que raio "estugar" não se aplica a mais nada, enchi os pulmões de ar e preparei-me para viver aquele que prometia ser um dos momentos mais importantes da minha vida. Parece que foi ontem, mas foi segunda-feira que... voltei a uma esplanada! Cheguei onde me esperavam. A mim e a qualquer um que tivesse trocos. Não achei nada de especial, confesso. Ficou aquém das minhas expectativas. Já devia saber que é sempre assim, já com a Base Naval do Alfeite foi a mesma coisa, só se aproveitou o piquenique... A esplanada não é bem o que eu tinha em mente. Já não me lembrava. Primeiro estava muito sol, depois pôs-se vento, rajadas de tal ordem que não se conseguia ler o jornal. A esplanada parece boa ideia em teoria, mas na prática está demasiado exposta à fúria dos elementos. A tosta mista não estava má, mas fiquei com saudades de quando podíamos comê-la no interior do estabelecimento. O ser humano é insatisfeito por natureza, bem sei. Dão-nos a mão, queremos logo o braço. De preferência um braço de madeira para a cadeira, que aqueles de inox são frios e desconfortáveis. Parecem um convite para irmos embora.

As cadeiras de esplanada são, por definição, mais desconfortáveis que todas as outras. Ou é essa estrutura rígida que encarcera o cóccix, ou é o plástico periclitante que ameaça fraturá-lo a qualquer momento. Acho "O regresso das esplanadas" um filme que não surpreende, a não ser que alguns cenários catastrofistas se confirmem e morramos todos no fim, por termos ido beber um café. Acho que esta estreia merece ainda menos estrelas do que "White lines". Foi um sucesso de bilheteira, mas não me convenceu.

*Humorista

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