Opinião

O "Efeito Oliveira"

Terça-feira, 9 de março, ali entre as nove e as onze da noite, nem sei bem, perdi a noção, do tempo e do espaço, como acontece por vezes aos melhores (Olá, Marega! Adoro-te na mesma), perdi o fôlego, perdi a conta à quantidade de vezes que googlei "taquicardia pode levar à morte?", "é comum adepto morrer a assistir a jogo?" e ainda "torcedor sofrendo infarto", porque as pesquisas em português do Brasil devolvem sempre mais resultados, perdi de vista o facto de ter 35 anos, quando deslizei pelo chão da sala, de pijama, e de joelhos, como se tivesse ainda saúde articular para isso, como se não fosse uma respeitável mãe de filhos e, mais absurdo de tudo, como se tivesse sido eu a marcar o golo.

Em suma, perdi o juízo. E, no final, o Porto também perdeu. O jogo. Mas não fez mal. É talvez a mais saborosa derrota do Porto, desde 1893 (deve ter havido outras equivalentes, em eliminatórias a duas mãos, mas isto também não é um artigo com estatísticas do site GoalPoint). Todas as outras derrotas são inadmissíveis. Sejam contra o Liverpool ou o Fátima (mesmo que estes últimos recorram a alguns santos milagreiros). Não é tolerável para nenhum portista, desde o que está em campo até ao que está numa casa de campo, longe de tudo e todos, a ouvir o relato num transístor, que o Porto perca. Não é que achemos que está ganho à partida, mas achamos insuportável a simples ideia de não estar ganho no fim. É uma cultura de exigência que às vezes está ali no limiar da loucura. Como aquele pai muito severo que nunca se contenta com nada. "Tiveste 19 a Matemática? Porque é que não tiveste 20?", "Ah, tiveste 20 a Português? Não fazes mais que a tua obrigação". Sérgio Conceição personifica esse espírito austero. Disse certo dia "fico infeliz com as derrotas e não fico feliz com as vitórias, porque perder não é normal, ganhar é normal". Eu não quero transformar-me nesse coração empedernido. Se assim for, somos uma espécie de adolescente que sofre por amor trancado no quarto, enquanto chora ao som de música triste, mas que, no momento em que conquista a miúda dos seus sonhos e pode dar umas voltas com ela de mão dada pelo parque, está mais preocupado em saber que, eventualmente, aquele namoro há de acabar, porque ela irá trocá-lo por um tipo mais giro que anda no 9.º C. Para quê? Para quê pensar que a taça da maior competição de clubes da Europa vai inevitavelmente acabar abraçada a um qualquer Bayern, e não aproveitar este passeio no parque? "Só a vitória final é o objetivo", disse um dia Pedroto. Certo. Mas não há lei que nos impeça de sermos felizes pelo caminho, mesmo sem saber se chegaremos ao fim. A vida é demasiado curta para não se deslizar pelo chão da sala, de forma ridícula, uma vez que seja. Nós, os adeptos, não temos obrigação de estar já "com o foco na próxima jornada, frente ao Paços de Ferreira". Aproveitemos esta felicidade que nos depositaram na conta. A comunidade científica devia interessar-se mais por estes efeitos colaterais do futebol. Já sabemos que o bater de asas de uma borboleta no Japão pode desencadear um tufão no outro lado do Mundo, mas ninguém fala de como um bater de livre em Turim pode desencadear euforia a 2000 km de distância. Chamemos-lhe o "Efeito Oliveira". A bola que rematou não foi com grande efeito, foi mesmo forte e colocada, mas deixou muita gente com um sorriso no rosto durante vários dias. Já todos os fãs de futebol sentiram isto, com heróis dos respectivos clubes, cada um à sua escala, cada um no seu escalão. Disfrutemos das pancadinhas nas costas e mensagens de felicitações dos nossos amigos, louros que recolhemos como se merecêssemos. Estamos a recebê-los indevidamente, sabemos disso. Não fomos nós que entrámos em campo, não fomos nós que defendemos e que marcámos, não fomos nós que tivemos de correr o dobro porque um colega nosso foi expulso aos 53. Nós, e ainda mais neste ano sem público nos estádios, tivemos uma participação reduzidíssima neste feito. Ligámos a televisão, sentámo-nos no sofá, levantámo-nos, sentamo-nos, levantámo-nos de novo, "é amarelo!", sentámo-nos, "penálti!", levantamo-nos "é golo!", sentámo-nos de novo (onde anda a malta do Zero Zero para contabilizar estas coisas quando é preciso?). Nós só sofremos, vendo de fora, e sabendo que o verbo "sofrer" devia ser guardado para assuntos sérios e graves, e os amigos que nos felicitam reconhecem precisamente isso. Eles também sofrem, mesmo que seja por outras cores, e sabem que de vez em quando o adepto comum merece uma vitória fora do normal.

Humorista

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