Opinião

O futuro a seus pés

Lembro-me de ver os Jetsons e pensar duas coisas: primeiro, que os estúdios Hanna-Barbera se deviam ter ficado pelos Flinstones, porque tinham muito mais graça e, depois, que de facto a vida devia ser fixe em 2062, ano retratado na série. Ainda não chegámos lá, mas muitas das previsões já se materializaram (a desmaterialização e o teletransporte lamentavelmente ainda não).

Confesso que quando ouvi falar pela primeira vez em robôs de cozinha, imaginei logo uma qualquer prima afastada da Rosie (empregada do clã Jetson), no mesmo tom de azul, a fazer as camas e a passar roupa a ferro. Não escondi a minha desilusão quando uma vendedora da Bimby apareceu lá em casa para fazer uma demonstração da dita. Dizer que a Bimby faz lasanha é claramente um exagero. Nós é que fazemos. Temos de ir comprar os ingredientes que a receita recomenda, temos de enfiá-los na máquina pela ordem que ela exige, temos de ir a correr desligá-la quando aquele apito azucrinante começa a soar e, para meu grande espanto, temos de dispor as camadas de lasanha e o recheio num tabuleiro e levá-lo ao forno! Nós! E ela ali, parada, a olhar, como quem diz "vamos lá ver se não estragas tudo agora". Resumindo, tornámo-nos empregados da máquina. Estamos para a Bimby como a Rosie estava para a família Jetson. Não era ainda a revolução tecnológica que eu esperava. Os robôs são muito bons para picar gelo, sim senhora, mas não trouxeram uma mudança assim tão grande às nossas vidas. Enquanto olhávamos para a frente, tentando perspetivar o futuro e adivinhar a próxima tecnologia de ponta, armados em Lourenço Medeiros (ainda que sem colete), a revolução foi acontecendo debaixo do nosso nariz. Mais concretamente, aos nossos pés. Falo-vos dos aspiradores robôs. Aquela espécie de disco voador que nos remete imediatamente para o caso Roswell. Mas desta nave, que custa poucas centenas de euros, ninguém sai. Só entra. É o Hotel Califórnia da limpeza doméstica. Entra pó e mais pó, sem que tenhamos de mexer uma palha. Este aspirador espacial conhece os cantos à casa, apesar de ter acabado de chegar, e suga todo o cotão que encontra pela frente. E antes que perguntem, não, isto não é um conteúdo patrocinado, até porque não fui eu a adquirir o pequeno robô. E é aqui que reside a grande diferença trazida por esta inovação: são os homens quem se interessa por estes robôs. Não, não fiz um estudo da Marktest, mas recorri a um método empírico em que sou já muito experiente e que consiste em ouvir conversas alheias. Percebi que seres do género masculino conversam com grande entusiasmo sobre os seus Roomba, Xiaomi e outras marcas que não sei nomear porque, lá está, sou mulher. Não quero estar aqui a dizer que as mulheres são assim e os homens assado. Mas realmente esta sequência, "homem" e "assado", ainda é mais rara do que seria desejável. Se calhar, é um filtro que devia ser adicionado no Tinder e aplicações congéneres: "faz um bom assado", "sabe refogar". Não gosto de embarcar em velhos estereótipos de género (futebol é para homens, moda é para mulheres), mas aprecio um bom novo estereótipo. E por isso inauguro-o aqui: aspiradores que se movem sozinhos são para homens. Falam deles com o mesmo entusiasmo com que senhoras se reúnem para falar de Tupperwares. Sim, eu sei que nessas reuniões também haverá um ou outro cavalheiro, já convertido às maravilhas das caixinhas plásticas, como há com certeza mulheres que vibram com os feitos dos robôs domésticos. Mas ainda não vi nenhuma vibrar tanto como os homens, que se gabam da quantidade que saiu do aspirador como quem se vangloria depois de uma grande pescaria. Discutem modelos e eficácia dos aspiradores com o mesmo fervor com que leem aqueles aborrecidos comparativos de automóveis. Isto, sim, é um progresso. É (também) no campo dos pequenos eletrodomésticos que se faz a luta pela igualdade de género. Não pode ser só no Twitter. Se transformarmos todas as aborrecidas máquinas em fascinantes gadgets, levamos os homens a fazer tudo em casa sem se darem conta, e nem sequer precisamos de fazer aquela aborrecida correção gramatical "não é ajudar com as tarefas, é dividir". Más notícias para a Rosie: afinal, em 2062, será obsoleta, já não precisaremos dela, os homens estarão fascinados com tábuas de engomar com ecrã tátil e estendais com wi-fi.

20 Valores

Para o regresso às aulas nos EUA. Ao contrário do que acontece por cá, em que são sempre os mesmos cadernos da Patrulha Pata e mochilas do Frozen a fazer furor, ano após ano, nos Estados Unidos o grande sucesso de vendas é a mochila à prova de bala. Existe em várias cores e modelos, e as vendas subiram 200%, depois dos recentes tiroteios de El Paso e Dayton. Espero que, além de divisória para o estojo, traga já uma para o revólver, para quando aprovarem a lei que permite porte de arma a menores. Deve estar para breve...

* HUMORISTA