Opinião

Pão com manteiga

"Pão pão pão pão pão pão, com manteiga é tão bom". Apesar de começar com uma citação de um dos candidatos à presidência este não é um texto sobre as próximas eleições. É sobre as próximas refeições com direito a couvert.

Serve também para lembrar que o nosso país já ultrapassou crises piores: se em 2001 sobrevivemos ao álbum "Tinomania", também vamos resistir à pandemia. Esquecendo o essencial, foquemo-nos no acessório: as saudades que sinto de um bom couvert. Ou até de um médio-couvert, com aquelas manteigas de pacote com duvidoso sabor a alho. Só dos péssimos couverts é que não sinto falta, aqueles com pão embalado em plástico, como se fosse ração de combate, de produtos embalados estamos nós fartos. E não, não se assustem, não fui atacada por uma súbita preocupação com o ambiente, nem passarei a fazer greve pelo clima todas as sextas. O que me aborrece nos produtos embalados não é o material do embrulho. Podem vir em cartão que será triste na mesma, lembram-me que estou a consumi-los em casa, requentados. A ideia de "conforto do lar" é empolada há séculos (bom, talvez só desde que os lares têm água canalizada), mas não devemos subestimar o conforto do restaurante. Que saudades dos restaurantes tal como os conhecíamos. Ainda alguém se lembra do sorriso do empregado da marisqueira? Agora, com a máscara, parece um enfermeiro que vai fazer um procedimento cirúrgico aos carabineiros. E quando não existiam acrílicos? Agora parece que fomos almoçar às Finanças, comer um bife à pressa, enquanto despachamos papelada. Não sinto saudades dos restaurantes que tínhamos em dezembro. Sinto saudades dos que tínhamos em 2019, e tivemos a vida toda. E saudades do que ainda não vivemos: todos os que iam abrir mas ficaram no papel, e todos os que já não reabrirão e forraram a montra com um papel: "trespassa-se". O mapa sentimental de um português faz-se de restaurantes, no ponto a) o restaurante onde íamos ao domingo com os nossos avós, no ponto b) o restaurante ao lado da secundária, onde nos sentíamos muito adultos por ter dinheiro para pagar um bitoque, no ponto c) o restaurante daquele aniversário, no ponto d) o restaurante das férias, onde éramos saudados todos os anos como se fôssemos Reis de Portugal e dos Algarves, no ponto e) o restaurante do primeiro encontro com aquele namorado que achávamos que ia durar a vida toda... e um regresso ao ponto de partida, para aquele restaurante que dura, realmente, a vida toda. Íamos com os nossos avós, levamos agora os nossos filhos e esperamos que paguem eles a conta quando formos avós. Um rendilhado de pontos que diz muito mais de nós do que um mapa astral. E neste dá para confiar! Vamos ser felizes. Quando pudermos voltar aos nossos programas preferidos: almoçar e jantar, enquanto à mesa agendamos as próximas refeições. O takeaway foi como o teletrabalho: em março parecia uma ótima ideia, que juntava o útil ao agradável. Em abril já nos parecia apenas útil, e em maio era um conceito hediondo. Dura pouco, tanto a alegria de estar a um corredor de distância do emprego, como o almoço entregue à porta do restaurante ou de casa. Não é a mesma coisa. Sentimos saudades dos colegas de trabalho, mas sobretudo daquele arroz de tomate ainda a fumegar. De pataniscas acabadas de fritar. Do couvert. Ninguém faz entregas de couvert porque em casa somos racionais e percebemos que estar a desperdiçar dinheiro e apetite com pão com manteiga, antes de comermos um cozido à portuguesa, não faz sentido. Nos restaurantes a racionalidade fica à porta, e isso é que é mágico. E que explica certas contas: "como assim, bebi 27 cervejas?". Até desse momento temos saudades: o ritual da solicitação da "continha". Sempre na esperança de que seja pequena. Mas claro que não pode ser: afinal de contas, entrámos convencidos de que íamos manter a dieta e saímos depois de um rodízio de entradas, três pratos e pijaminha de sobremesas. Almoçar fora permite-nos ser irresponsáveis, e é por isso que é tão difícil fazê-lo numa altura em que nos é exigida responsabilidade. Queremos voltar a juntar amigos à mesa sem contar se somos seis, se o restaurante fecha mais cedo, sem falar de diabetes ou covid. Parece que não é para já. Para matar o tempo e a fome, continuarei a recorrer ao takeaway. Afinal, é das poucas oportunidades que tenho de ajudar a economia fazendo uma coisa para a qual tenho tanto talento: comer. Não me estão a pedir muito, e eu faço questão de pedir muito: entrada, prato, sobremesa...

*Humorista

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