Opinião

Pelo direito a perder

Qual é coisa qual é ela que antes de ser já o era? A pescada. E também o falhanço da Superliga europeia. Mesmo que a coisa tivesse avançado, ao invés de ter durado três dias, seria sempre um falhanço, um retrocesso civilizacional.

Não pelo torneio em si, já que os clubes têm direito à autodeterminação, mas pela justificação dada por um dos mentores, Florentino Pérez. Diz o presidente do Real Madrid que o futebol agora é global, com fãs em todo Mundo, o que obriga a modalidade a adaptar-se. Isto é levar o conceito de Futre, "vai vir charters de chineses", a um outro nível. Há quem diga que as pessoas se fartariam de ver Barcelonas-Manchesters a toda a hora. Não estou certa disso, acho que algumas pessoas adorariam ver jogos desses todos os dias, da mesma forma que consomem sempre a mesma música no Spotify, e já não compram o álbum desse artista, para descobrir faixas escondidas, e da mesma maneira que veem na Netflix documentários que, não sendo sempre o mesmo, soam sempre à mesma coisa. A questão é: que pessoas são estas, e porque é que estamos a deixá-las dominar o Mundo? Era uma pergunta retórica, sei que é por serem muitas e sinónimo, por isso, de muito dinheiro. Florentino Pérez veio lembrar que os jovens dos 16 aos 24 já não têm interesse pelo futebol. Daí este afã de criar uma nova liga? Para agradar a mimados que já não apreciam ver bola? Sim, poderei soar a velha do Restelo (até de modo literal e não apenas literário, como nos "Lusíadas", já que também prefiro o Belenenses à criação laboratorial B Sad), mas vamos agora a correr mudar o Mundo para agradar aos meninos que preferem jogar FIFA do que ver competições da FIFA? Que preferem apostar na Fantasy e torcer para que o Lingard marque, do que apostar com um amigo que pintarão o cabelo de verde quando Paulinho marcar? Vá lá que por enquanto ainda saem de casa para ir a festivais, caso contrário aboliam-se também os concertos. Pesquisando por "jovens vão cada vez menos a...", surgem resultados tão distintos como cinema, teatro ou às urnas. Vamos impor uma ditadura, já que não apreciam votar? (Gosto sempre de uma comparação absurda, só para ver se o leitor está atento.) Sei que, à partida, o voto eletrónico surgiria antes de um regime ditatorial, mas até que ponto fará sentido tornar tudo tecnológico e distante? Neste caso, pensar mais na liga europeia de clubes transmitida via TV, para deleite de asiáticos que conhecem CR7 de um anúncio de lâminas de barbear, do que nas ligas nacionais que levam famílias ou amigos a sair de casa, usufruindo deste enorme privilégio de serem bípedes, e caminhar até ao estádio? Mais do que criticar agora os magnatas que querem ser ainda mais ricos, e jogar uma liga entre eles, até porque estão no seu direito, como o Benfica estaria em querer jogar apenas a Eusébio Cup, importa criticar também os pais. Incluo-me nesse clube, o triste clube dos que já não jogam solteiros-casados porque estão na agremiação "casados com filhos" e só jogam às escondidas. Nomeadamente, "vou esconder-me aqui na despensa para ver o final deste Porto-Vitória em paz, enquanto eles estão ali aos gritos a dizer que não querem mais sopa". Adaptar o Mundo àquilo que as crianças desejam era nunca mais lhes dar sopa, mesmo sabendo que lhes faz bem. O equivalente a nunca mais lhes dar a hipótese de ver um Porto-Bayern, um Real Madrid-Sporting, um Benfica-Chelsea (bom, talvez alguns tivessem preferido poupar as crianças ao trauma do minuto "ochencha y ocho" ou "cabeçada de Ivanovic aos 92"), reparem como escolhi propositadamente o jogo caseiro frente ao Bayern e não os 6-1 que foram infligidos ao Porto em Munique, é um trauma no qual não me sinto ainda preparada para remexer. Isto faz-me lembrar as míticas tiras de BD "Calvin & Hobbes", em que o pai obrigava Calvin a ir brincar lá para fora, ao frio, justificando que era para formar caráter. Numa semana em que se criticou tanto a Superliga por serem sempre os mesmos a ganhar, esquecemos outro direito inalienável: o direito a perder, a fracassar, a formar caráter. É importante que os grandes cá do burgo possam jogar de vez em quando com a alta burguesia. É giro sermos Gulliver dentro de portas, e liliputianos lá fora. Sentirmo-nos diminuídos de quando em vez faz-nos crescer. Ainda bem que não deixámos a elite do futebol pôr-se ao fresco, porque faz-nos bem ir apanhar frio lá para fora, da mesma forma que fará bem aos nossos filhos saírem do quentinho da Playstation e virem connosco ao estádio, apanhar com vento na cara e aprender palavrões novos, que os proibiremos de usar fora dali.

Humorista

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